Neste curto espaço entre nós e a morte
Dezembro 27, 2016

Neste curto espaço entre nós e a morte

tão mal gastamos nossa longa despedida!

.

Tu, amor de quem não sei o nome

de onde não sei a sorte,

vais passar além deste poema que era teu

e assim de morte construída,

teus passos vão enchendo a minha vida.

.

Outro nome será flor sobre os teus lábios,

e outros dedos tocarão a límpida frescura

dos teus ombros quase d’ água

e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo…

.

E assim iremos de olhos futuros,

tu, envelhecendo na minha ausência,

eu, a erguer-te na curva da esperança,

.

e outra mão vai desmanchar a tua trança

e hei-de beijar teu rosto onde não eras

e serás só o que há antes das horas mais tristes

e será tarde até saber que não existes.

.

Neste curto espaço entre nós e a morte,

onde me vais perdendo,

onde te vou buscando.

nosso amor se vai embora alimentando

de despedida ;

não porque morra o tempo em teus braços,

mas a vida.

Dandelion --- Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Dandelion — Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Victor Matos e Sá

Canção de Amor
Outubro 14, 2016

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.
.
Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.
.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.
.
Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.
.
Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.

margaridas



Joaquim Pessoa   
em    ‘Canções de Ex-Cravo e Malviver’

Poesia
Outubro 19, 2015

Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia

.
Onde a poesia não é poesia
não é poesia

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António Ramos Rosa

Luz
Outubro 13, 2015

Eu sinto-te a ferver dentro de mim,

Poesia.

Tu és a voz

resignada, triste, insatisfeita,

sei lá,

de um desejo de plenitude,

de uma espera desesperada,

de um grito no deserto.

.

A luz que procuro foge-me.

Só me deixa ver

as suas cintilações efémeras,

só me deixa imaginar

a sua claridade,

e foge…

.

Até quando?

Até quando esta ausência

premeditada e perversa?

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Diana  Sá

Ausência
Outubro 6, 2014

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.

mar bravo

Jorge Luis Borges, “Fervor de Buenos Aires” (1923) (tradução de Fernando Pinto do Amaral)

O amor é uma companhia
Junho 10, 2012

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
e ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

Ecos
Outubro 19, 2011

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral

Entardecer
Setembro 27, 2010

Sei que estás longe e triste…

Não conheço a tragédia que escondes

 nos teus olhos meigos.

Mas sinto-a… esse desespero escondido

em sorrisos calmos e cansados.

A tua vertigem da morte assusta-me…

sobretudo pelo que traduz

de falta de esperança no amanhã.

Não te peço para renasceres…

apenas que deixes o encanto

do entardecer emprestar-te a sua luz

de fim de dia são, realizado…

Diana Sá

 

 

Tu já me arrumaste
Setembro 9, 2010

Tu já me arrumaste no armário dos restos

eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos

e das nossas memórias começamos a varrer

as pequenas gotas de felicidade

que já fomos.

Mas no tempo subjectivo

tu és ainda o meu relógio de vento

a minha máquina aceleradora de sangue

e por quanto tempo ainda

as minhas mãos serão para ti

o nocturno passeio do gato no telhado?

Isabel Meyrelles

Crepúsculo
Julho 12, 2010

É quando um espelho, no quarto, se enfastia.

Quando a noite se destaca da cortina,

quando a carne tem o travo da saliva,

e a saliva sabe a carne dissolvida.

Quando a força de vontade ressuscita,

quando o pé sobre o sapato se equilibra,

e quando às sete da tarde morre o dia,

que dentro de nossas almas se ilumina

com luz lívida, a palavra despedida.

David  Mourão Ferreira