Horas breves de meu contentamento
Novembro 9, 2016

Horas breves de meu contentamento,

nunca me pareceu, quando vos tinha,

que vos visse mudadas tão asinha

em tão compridos anos de tormento.

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As altas torres, que fundei no vento,

levou, enfim, o vento que as sustinha:

do mal, que me ficou, a culpa é minha,

pois sobre coisas vãs fiz fundamento.

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Amor com brandas mostras aparece,

tudo possível faz, tudo assegura;

mas logo no melhor desaparece.

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Estranho mal! Estranha desventura!

Por um pequeno bem, que desfalece,

um bem aventurar, que sempre dura!

castelo

Luiz de Camões

Perfilados de medo
Fevereiro 15, 2016

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos,
e vida sem viver é mais segura.
.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo, combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não somos, do que não seremos.
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Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido.

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Alexandre O’Neill

Lápide
Maio 18, 2014

Luís Vaz de Camões.

Poeta infortunado e tutelar.

Fez o milagre de ressuscitar

a Pátria em que nasceu.

Quando, vidente, a viu

a caminho da negra sepultura,

num poema de amor e de aventura

deu-lhe a vida

perdida.

E agora,

nesta segunda hora

de vil tristeza,

imortal,

é ele ainda a única certeza

de Portugal.

camoes

Miguel Torga

Noite de Abril
Abril 26, 2014

Hoje, noite de Abril, sem lua,

a minha rua

é outra rua.

.

Talvez por ser mais que nenhuma escura

e bailar o vento leste

a noite de hoje veste

as coisas conhecidas da aventura.

Foz

Uma rua nova destruiu a rua do costume.

Como se sempre nela houvesse este perfume

de vento leste e Primavera,

à sombra dos muros espera

.

alguém que ela não conhece.

E às vezes, o silêncio estremece

como se fosse a hora de passar alguém

que só hoje não vem.

.

Sophia de Mello Breyner Andersen

Recomeça
Maio 5, 2012

Recomeça… se puderes,

sem angústia e sem pressa

e os passos que deres,

nesse caminho duro

 do futuro,

dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances,

não descanses,

de nenhum fruto

queiras só metade.

E, nunca saciado,

vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

o logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

onde, com lucidez, te reconheças…

.

Miguel Torga

Soneto da 4ª feira de Cinzas
Março 9, 2011

Por seres quem me foste, grave e pura

em tão doce surpresa conquistada,

por seres uma branca criatura

de uma brancura de manhã raiada ;

 

por seres de uma rara formosura

malgrado a vida dura e atormentada,

por seres mais que a simples aventura

e menos que a constante namorada ;

 

porque te vi nascer, de mim sozinha

como a noturna flor desabrochada

a uma fala de amor, talvez perjura ;

 

por não te possuir, tendo-te minha,

por só quereres tudo, e eu dar-te nada,

hei-de lembrar-te sempre com ternura.

 

Vinicius  de  Moraes

 

 

 

Viagem
Março 5, 2009

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Aparelhei o barco da ilusão

e  reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

o  mar…

( Só nos é concedida

esta vida

que temos ;

e  é nela que é preciso

procurar

o  velho paraíso

que perdemos ).

….

Prestes, larguei a vela

e  disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

a  revolta imensidão

transforma dia a dia a embarcação

numa errante  e  alada sepultura…

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,

o  que importa é partir, não é chegar.

 

Miguel Torga

Soneto de Separação
Novembro 24, 2008

tempestade20ao20anoitecer

De repente, do riso fez-se o pranto

silencioso e branco como a bruma,

e das bocas unidas fez-se a espuma,

e das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente, da calma fez-se o vento

que dos olhos desfez a última chama,

e da paixão fez-se o pressentimento

e do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente,

fez-se de triste o que se fez amante,

e de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se de amigo próximo o distante,

fez-se da vida uma aventura errante,

de repente, não mais que de repente.

 

 Vinicius de Morais