Tenho fome
Janeiro 19, 2017

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.
.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
.
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.

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Pablo Neruda

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Adão e Eva
Julho 28, 2016

Adão e Eva
olhámo-nos um dia,
e cada um de nós sonhou que achara
o par que a alma e a cara lhe pedia.

– E cada um de nós sonhou que o achara…

E entre nós dois
se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
… se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

– Meu nome é Adão…

E em que furor sagrado
os nossos corpos nus e desejosos
como serpentes brancas se enroscaram,
tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
que as nossas pobres bocas se atiraram
sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
sede que nada mata, ânsia sem fim!
– tu de entrar em mim,
eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
e assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,
meu inferno celeste,
cem vezes morri, prostrado…
Cem vezes ressuscitei
para uma dor mais vibrante
e um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
e as doces curvas do teu corpo se ajustavam
às linhas fortes do meu,
os nossos olhos muito perto, imensos,
no desespero desse abraço mudo,
confessaram-se tudo!
… Enquanto nós pairávamos, suspensos
entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
como os corpos se tinham entregado,
assim duas metades se amoldaram
ante as barbas, que tremeram,
do velho Pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,
a miséria do meu ser,
os recantos da minha humanidade,
a grandeza do meu amor cruel,
os veios de oiro que o meu barro trouxe…

Eu, os teus nervos convulsos,
o teu poder,
a tua fragilidade,
os sinais da tua pele,
o gosto do teu sangue doce…

Depois…

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
– que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada…

Continuamos a ser dois,
e nunca nos pudemos penetrar!

abraço 2

José Régio

Sei onde o trigo
Fevereiro 21, 2016

Sei onde o trigo ilumina a boca.
Invoco esta razão para me cobrir
com o mais frágil manto do ar.
.
O sono é assim, permite ao corpo
este abandono, ser no seio da terra
essa alegria só prometida à água.
.
Digo que estive aqui, e vou agora
a caminho de outro sol mais branco.

estátua

Eugénio de Andrade

Tu vinhas
Dezembro 8, 2015

Não me fizeste sofrer
mas esperar.

Naquelas horas
emaranhadas, cheias
de serpentes,
quando
a alma me caía e eu me afogava,
tu vinhas-te aproximando,
tu vinhas nua e arranhada,
tu chegavas ensanguentada ao meu leito,
noiva minha,
e então
caminhávamos toda a noite dormindo
e, quando acordávamos,
estavas intacta e nova,
como se o vento grave dos sonhos
acendesse de novo
o fogo da tua cabeleira
e em trigo e prata submergisse
teu corpo até torná-lo deslumbrante.

Eu não sofri, meu amor,
esperava-te apenas.
Tu precisavas de mudar de coração
e de olhar
depois de tocares a profunda
zona do mar que meu peito te entregou.
Precisavas de sair da água
pura como uma gota erguida
por uma onda nocturna.

Noiva minha, tu precisaste
de morrer e de nascer, eu esperava-te.
Não sofri a procurar-te,
sabia que virias,
mas outra, com o que adoro
da mulher que não adorava,
com teus olhos, tuas mãos e tua boca,
mas com outro coração,
que amanheceu a meu lado
como se sempre tivesse estado ali
para continuar comigo para sempre.

mulher-caminhar
Pablo Neruda, em “Os Versos do Capitão“.

Poema Quadragésimo Sexto
Junho 19, 2014

violeta 2

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti. Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim. Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor..
JOAQUIM PESSOA,   em   GUARDAR O FOGO

A noite na ilha
Maio 29, 2014

Dormi contigo toda a noite

junto ao mar, na ilha.

Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.

.

Os nossos sonos uniram-se

talvez muito tarde

no alto ou no fundo,

em cima como ramos que um mesmo vento agita,

em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

.

O teu sono separou-se

talvez do meu

e andava à minha procura

pelo mar escuro

como dantes,

quando ainda não existias,

quando sem te avistar

naveguei a teu lado

e os teus olhos buscavam

o que agora

– pão, vinho, amor e cólera –

te dou às mãos cheias,

porque tu és a taça

que esperava os dons da minha vida.

.

Dormi contigo

toda a noite enquanto

a terra escura gira

com os vivos e os mortos,

e ao acordar de repente

no meio da sombra

o meu braço cingia a tua cintura.

Nem a noite nem o sono

puderam separar-nos.

.

Dormi contigo

e, ao acordar, a tua boca,

saída do teu sono,

trouxe-me o sabor da terra,

da água do mar, das algas,

do âmago da tua vida,

e recebi teu beijo,

molhado pela aurora,

como se me viesse

do mar que nos cerca.

ilha

Pablo Neruda

Resgate
Novembro 6, 2013

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Há qualquer coisa aqui de que não gostam

da terra das pessoas ou talvez

deles próprios

cortam isto e aquilo e sobretudo

cortam em nós

culpados sem sabermos de quê

transformados em números estatísticas

défices de vida e de sonho

dívida pública dívida

de alma

há qualquer coisa em nós de que não gostam

talvez o riso esse

desperdício.

.

Trazem palavras de outra língua

e quando falam a boca não tem lábios

trazem sermões e regras e dias sem futuro

nós pecadores do sul nos confessamos

amamos a terra o vinho o sol o mar

amamos o amor e não pedimos desculpa.

.

Por isso podem cortar

punir

tirar a música às vogais

recrutar quem vos sirva

não podem cortar o verão

nem o azul que mora

aqui

não podem cortar quem somos.

Manuel Alegre

Não perguntes
Outubro 30, 2013

De onde vem? De que fonte

ou boca

ou pedra aberta?

É para ti que canta

ou simplesmente

para ninguém?

Que juventude

te morde ainda os lábios?

Que rumor de abelhas

te sobe à garganta?

Não perguntes, escuta:

é para ti que canta.

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Eugénio de Andrade

De novo
Março 28, 2013

De novo os passos, mansos, nas escadas.

De novo as chaves a cantar na porta.

Tulipas de silêncio amedrontadas

aguardam o sorriso que conforta.

.

De novo as mãos onde despontam rios.

De novo os olhos onde oscila a lua.

E desato as amarras dos navios

e das palavras que me fazem tua.

.

Chegar é confessar que me desejas.

Calar é confirmar que não dispenso

o gesto em que, gaivota, me insinuo…

.

Se de leve no ombro tu me beijas,

pela seda da roupa te pertenço

pela sede da boca te possuo.

olhosnosolhos

Rosa Lobato de Faria

Palavras
Janeiro 31, 2013

amo as palavras na sua sensualidade cheia de curvas, bocas apelativas…
amo as palavras no silêncio de serem ecos do infinito que me
habita e me persegue como uma sombra de mim…
amo as palavras porque rasgam as minhas vontades no desejo de se exprimirem,porque com elas questiono a vida, me amortalho, me transcendo, me perco entre nuvens…
amo as palavras porque elas me habitam sem pecado, porque me fazem chegar ao outro lado do mundo…

 

meditando_fhdr-1assinado
Margarida  Vieira