Poema sobre nada
Janeiro 26, 2017

Por vezes a Primavera é um pássaro que atravessa o Inverno,

não há o calor do sol

ou a brisa tépida que sopra por entre as folhas,

por vezes um olhar é o único aceno.

.

Há dias em que a única certeza da vida

é a tua leve presença

sobre o abismo da ignorância,

há dias em que nem a morte está garantida.

.

Um pássaro de luz corta as nuvens de sombra,

desde a claridade e as trevas

do princípio,

um pássaro de luz da tua íris irrompe.

.

Os teus braços não provarão que estou vivo,

são efémeros

mas deixei de parte a memória,

os teus braços nada provam e cinjo-os.

passaroverde

Joel Henriques

Abdicação
Abril 1, 2016

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
e chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
o meu trono de sonhos e cansaços.
.
Minha espada, pesada a braços lassos,
em mãos viris e calmas entreguei;
e meu ceptro e coroa – eu os deixei
na antecâmara, feitos em pedaços.
.
Minha cota de malha, tão inútil,
minhas esporas de um tinir tão fútil,
deixei-os pela fria escadaria.
.
Despi a realeza, corpo e alma,
e regressei à noite antiga e calma
como a paisagem ao morrer do dia.

alone

Fernando Pessoa

Entretenimento
Março 29, 2015

Como quem procura conchas à beira do mar,

escolho as palavras para te dizer,

quando o silêncio dos teus braços

vestir o frio dos meus ombros.

concha

Luísa  Dacosta

Presentes de um poeta
Outubro 7, 2012

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei o teu olhar

e para onde tu fores levarás minha dor.
Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
Do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Desde teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

Foto: PABLO NERUDA, in PRESENTES DE UM POETA (Arteplural ed.)</p><br /><br />
<p>Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,<br /><br /><br />
já não se achará doce minha dor a teu lado.</p><br /><br />
<p>Mas por onde eu caminhe levarei o teu olhar<br /><br /><br />
e para onde tu fores levarás minha dor.</p><br /><br />
<p>Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos<br /><br /><br />
um desvio na rota por onde o amor passou.</p><br /><br />
<p>Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,<br /><br /><br />
Do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.</p><br /><br />
<p>Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.<br /><br /><br />
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.</p><br /><br />
<p>…Desde teu coração diz adeus um menino.<br /><br /><br />
E eu lhe digo adeus.</p><br /><br />
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Pintura de dafni amecke tzitzivakos</p><br /><br />
<p>*<br /><br /><br />
(LT)
Pablo  Neruda

E por vezes
Outubro 26, 2009

asruasdopensamento

E por vezes as noites duram meses.

E por vezes os meses oceanos.

E por vezes os braços que apertamos

nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses

o que a vida nos fez em muitos anos.

E por vezes fingimos que lembramos.

E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos,

só o sarro das noites não dos meses

lá no fundo dos copos encontramos.

E por vezes sorrimos ou choramos.

E por vezes por vezes ah por vezes

num segundo se evolam tantos anos.

 

David Mourão Ferreira

Diz-me o teu nome
Setembro 22, 2008

Diz-me o teu nome – agora, que perdi

quase tudo, um nome pode ser o princípio

de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

.

com os teus dedos – como as poeiras se

escrevem, irrequietas, nos caminhos e os

lobos mancham o lençol de neve com os

sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

.

como a levares as palavras de um livro para

dentro de outro – assim conquista o vento

o tímpano das grutas e entra o bafo do verão

na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

.

nos meus lábios devagar : é um poema

açucarado que se derrete na boca e arde

como a primeira menta da infância.

.

Ninguém esquece um corpo que teve

nos braços um segundo – um nome sim.

Letting go

 M.ª Rosário Pedreira