Poema sobre nada
Janeiro 26, 2017

Por vezes a Primavera é um pássaro que atravessa o Inverno,

não há o calor do sol

ou a brisa tépida que sopra por entre as folhas,

por vezes um olhar é o único aceno.

.

Há dias em que a única certeza da vida

é a tua leve presença

sobre o abismo da ignorância,

há dias em que nem a morte está garantida.

.

Um pássaro de luz corta as nuvens de sombra,

desde a claridade e as trevas

do princípio,

um pássaro de luz da tua íris irrompe.

.

Os teus braços não provarão que estou vivo,

são efémeros

mas deixei de parte a memória,

os teus braços nada provam e cinjo-os.

passaroverde

Joel Henriques

Vesperal
Setembro 7, 2015

E, contudo, é bonito
o entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
da ramagem
e fica esparramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
parece adormecida
nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
sem destino.
E o rumor citadino
ondula nos ouvidos
distraídos
dos que vão pelas ruas caminhando
devagar
e como que sonhando,
sem sonhar…

por do sol 3

Miguel Torga

Não saibas : imagina
Novembro 19, 2012

Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
que o mar não cabe
na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
de ilusões…
Um á-bê-cê secreto
que soletres à margem das lições…

Voa pela janela
de encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
vais ao colo das brisas,
aias da fantasia…

Miguel Torga

Foto: João Carvalho (21 de Agosto de 2012)

Somos folhas breves onde dormem
Outubro 23, 2010

Somos folhas breves onde dormem

aves de sombra e solidão.

Somos só folhas e o seu rumor.

Inseguros, incapazes de ser flor,

até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos

cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio  de  Andrade

Uma lágrima
Outubro 19, 2010

Encosto a cabeça no vidro.

Lá fora anoitece. A chuva cai, gélida.

Fico a olhar o horizonte longínquo.

Por momentos fecho os olhos, fico a pensar em ti,

e teimosamente uma lágrima corre pela minha face.

E outra e mais outra.

Abro os olhos e vejo-te. Estarás aí?

Sorris.

Sorrio.

Uma leve brisa passa pela minha face,

gelando as lágrimas que não deixam de correr.

Fecho os olhos mais uma vez.

Desapareces.

Carlota Pires Dacosta

Ou apenas um sonho
Outubro 6, 2010

O desejo pediu.

 

Apareceste como um encanto,

neste Inverno,

doce brisa.

  

Com esse teu manto

quente e suave

protegeste-me.

 

Uma noite terna

e tranquila

ofereceste-me,

pois, com essa aragem de Verão,

o frio fugiu.

 

A solidão também partiu.

 

Breve vieste,

fugaz partiste.

 

De ti, pouco ficou.

Mas o mundo mudou!

 

Terás sido ou existido?

 

Foste imaginação

ou apenas um sonho,

um anseio do coração?

 

Vicente Ferreira da Silva

Como só a ti amaria
Setembro 18, 2010

Vieste sem te anunciares,

sem que precisasse de ti,

sem sentir a tua falta,

de mansinho,

como uma brisa suave.

E quando pensei em ti

já aqui estavas,

já me faltavas,

já te queria beijar.

 

O meu coração fechado era aberto,

a minha vida contada estava em branco.

Haviam palavras por dizer,

mãos que tinham muito por tocar.

 

Acordei e descobri que te queria,

num desejo que é mais do que desejo.

Em cada carícia sobre a tua pele,

e em cada beijo demorado,

um desejo de ser profundo,

tão profundo quanto o mais profundo mar…

 

Em cada beijo demorado,

ser mais do que eu,

dar-te mais do que tenho,

misturar-me mais do que em ti,

sermos mais do que um.

 

A cada beijo demorado,

sermos mais do que nós,

vontade mais do que nossa,

de nos despirmos de tudo,

e encontrar no fundo do olhar

o que existe para além de nós que nos tocamos.

 

A cada beijo amar-te a ti,

como só a ti amaria,

nem que para isso só tivesse este momento.

 

Ah! Quem te colocou no meu caminho?

João Tiago