Canção tão simples
Março 27, 2018

Quem poderá domar os cavalos do vento

quem poderá domar este tropel

do pensamento

à flor da pele?

.

Quem poderá calar a voz do sino triste

que diz por dentro do que se não diz

a fúria em riste

do meu país?

.

Quem poderá proibir estas letras de chuva

que gota a gota escorrem nas vidraças

pátria viúva

a dor que passa?

.

Quem poderá prender os dedos farpas

que dentro da canção fazem das brisas

as armas harpas

que são precisas?

chuva4

Manuel  Alegre

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Vindas do mar
Setembro 25, 2015

São coisas vindas do mar.
Ou doutra estrela.
Seixos, ouriços, astros
pequenos e vagabundos, sem bússola,
sem norte, os passos incertos. Pouco
se demoram. Como a felicidade.
Seguem outra canção, outra bandeira.
Tudo isso os olhos traziam.
Do mar. Ou doutra idade.

conchas

Eugénio de Andrade

Aquilo que eu não fiz
Agosto 15, 2014

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

não fui eu que gastei

mais do que era para mim

não fui eu que tirei

não fui eu que comi

não fui eu que comprei

não fui eu que escondi

quando estavam a olhar

não fui eu que fugi

não é essa a razão

para me quererem moldar

porque eu não me escolhi

para a fila do pão

este barco afundou

quando alguém aqui chegou

não fui eu que não vi

.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

talvez do que não sei

talvez do que não vi

foi de mão para mão

mas não passou por mim

e perdeu-se a razão

tudo o bom se feriu

foi mesquinha a canção

de esse amor a fingir

não me falem do fim

se o caminho é mentir

se quiseram entrar

não souberam sair

não fui eu quem falhou

não fui eu quem cegou

já não sabem sair

.

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

meu sono é de armas e mar

minha força é navegar

meu norte em contraluz

meu fado é vento que leva

e conduz

e conduz

e conduz

barco 2

Tiago Bettencourt

Quando eu morrer
Abril 30, 2014

quando eu morrer murmura esta canção

que escrevo para ti. quando eu morrer

fica junto de mim, não queiras ver

as aves pardas do anoitecer

a revoar na minha solidão.

 

quando eu morrer segura a minha mão,

põe os olhos nos meus se puder ser,

se inda neles a luz esmorecer,

e diz do nosso amor como se não

 

tivesse de acabar,

sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição

que ao deixar de bater-me o coração

fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura a minha mão.

Quando eu morrer murmura esta canção</p><br /><br />
<p>que escrevo para ti. quando eu morrer</p><br /><br />
<p>fica junto de mim, não queiras ver</p><br /><br />
<p>as aves pardas do anoitecer</p><br /><br />
<p>a revoar na minha solidão. </p><br /><br />
<p>quando eu morrer segura a minha mão,</p><br /><br />
<p>põe os olhos nos meus se puder ser,</p><br /><br />
<p>se inda neles a luz esmorecer,</p><br /><br />
<p>e diz do nosso amor como se não </p><br /><br />
<p>tivesse de acabar,</p><br /><br />
<p>sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição</p><br /><br />
<p>que ao deixar de bater-me o coração</p><br /><br />
<p>fique por nós o teu inda a bater,</p><br /><br />
<p>quando eu morrer segura a minha mão. </p><br /><br />
<p>Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

Vasco Graça Moura,    em    “Antologia dos Sessenta Anos”

Canção de Circunstância
Junho 15, 2009

Canto conforme a circunstância,

circunstância não minha mas dos homens todos.

É noite, estou fechado, é noite,

minha canção acesa sobre o mundo.

Esperança, tu não és fácil.

Amor, tu dóis.

Inquietam-se as palavras no poema

como o pulsar do sangue na garganta.

Noite. Estou fechado, é noite.

Mais do que na paisagem,

anoiteceu

no coração.

Canção, tu dizes

que há qualquer coisa que se chama vida.

Não me contas histórias para eu dormir,

estás acordada,

minha canção acesa

sobre a noite

do mundo.

Manuel Alegre

Manuel Alegre