Ergo uma rosa
Maio 16, 2018

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
como a lua não faz nem o sol pode:
cobra de luz ardente e enroscada
ou ventos de cabelos que sacode.

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Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
o céu pontua de ninhos e de cantos,
bato no chão a ordem que decide
a união dos demos e dos santos.

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Ergo uma rosa, um corpo e um destino
contra o frio da noite que se atreve,
e da seiva da rosa e do meu sangue

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construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
quanto me dói de mágoas e assombros.

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Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
neste cantar das aves nos meus ombros.

rosa

 

José Saramago 

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Breve poema da hora vã
Maio 1, 2017

Que poderei cantar-te nesta hora?

O século esgotou sua guitarra.

Não há surpresas nas sílabas de Abril.

Nem histórias para dizer.

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Ainda se chovesse ou se caíssem rosas

para dentro do verbo

acontecer.

rosa gelada

Manuel  Alegre

Dies Irae
Novembro 2, 2015

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
a mão do dedo sobre a nossa hora.
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Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
todo o futuro a este dia de hoje.
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Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
os motivos onde a alma se arrebata.
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Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades cinzeladas
que deixam ver a vida que não temos
e as angústias paradas.

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soledad_y_tristeza_by_magdalena220

Miguel Torga

Névoa
Maio 7, 2014

Os candeeiros flutuam, líricos, na névoa.

Os sons chegam macios, o tempo parou

e o asfalto desfez-se em estrelas.

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– Chove na cidade adormecida… –

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Como é bom saber que também dormes descansada!

Como é bom cantar para ti, na névoa nocturna,

uma canção de embalar

e húmida de chuva!

nevoeiro

Cristóvam Pavia