Chuva da tarde
Outubro 7, 2015

Chuva da tarde, – melodia mansa,

desejos vagos de chorar baixinho…

Voltei aos meus caprichos de criança,

– só quero, Amor, saber do teu carinho!

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Chuva da tarde… Na poeira ardente

cai um frescor inesperado e calmo.

É um frescor que purifica a gente

– como a leitura mística dum Salmo!

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Floresçam jasmineiros e açucenas,

– acuda-se à tristeza das raízes!

Que tu, Amor, com tuas mãos pequenas,

as guardes da estiagem e as baptizes!

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Meu coração doente remoçou-se,

quando o tocaram essas mãos piedosas…

Chuva da tarde, – enfermaria doce,

onde vão convalescer as rosas!

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Chuva da tarde… Ao longo das varandas

reza mistérios lentos a noitinha.

Que bem não é sonhar em coisas brandas,

nas tuas brandas asas de andorinha!

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Deixa que a sombra te emoldure a face,

– eleva no silêncio a tua voz!

O Cântico dos Cânticos renasce,

– diria até que se escreveu p’ra nós!

chuva

António Sardinha

Palavras
Outubro 12, 2014

Diz-me,

diz-me que me ouves,

que aí, no silêncio dos astros que não

têm nome,

as minhas palavras chegam como um

cântico,

como um eco de outras idades,

diz-me sem medo

que me vês mais perto dos candelabros,

nos salões de incenso aonde regressei

para ver-te,

para dizer-te como isto dói,

como os anjos me abandonam sempre

que chega o outono.

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José  Agostinho  Baptista