Mar
Novembro 23, 2019

Na melancolia de teus olhos

eu sinto a noite se inclinar

e ouço as cantigas antigas

do mar.

.

Nos frios espaços de teus braços

eu me perco em carícias de água

e durmo escutando em vão

o silêncio.

.

E anseio em teu misterioso seio

na atonia das ondas redondas

náufrago entregue ao fluxo forte

da morte.

Mar e rochas

Vinicius de Moraes

E de novo
Outubro 28, 2019

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

.

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

.

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

.

E tudo o que me dás eu te devolvo

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

coração 3

Rosa Lobato de Faria

Os difíceis amigos
Setembro 13, 2014

Estes mortos difíceis
que não acabam de morrer
dentro de nós; o sorriso
da fotografia,
a carícia suspensa, as folhas
dos estios persistindo
na poeira; difíceis;
o suor dos cavalos, o sorriso,
como já disse, nos lábios,
nas folhas dos livros;
não acabam de morrer;
tão difíceis, os amigos.

adeus

Eugénio de Andrade.

Em ti
Setembro 2, 2012

Em ti o chão exausto de meu desejo. A flor aberta
dos sentidos. A calidez do lume. A água. O vinho.
O sangue a estuar em fúria. O grito do sol
que em transe de labareda fulge e irradia.
A extensão de tantos vales


e colinas. Fragrantes. Infinitas.
Os pomos saborosos, repartidos.
Os gomos. Os sumos ardorosos.
Os bosques impregnados de maresia.
A placidez molhada das ervas.
O luzir loiro das searas pelo vento devastadas.
O estio. O seu zénite. A sua vertigem.

Em ti a inclinação dos ramos. A translucidez do verde.
O derrame da seiva. O estremecer das raízes.
O musgo despontando. O aveludado dos troncos.
Os álamos. Os plátanos. E outras núbeis melodias.
O espreguiçar incandescente dos rios.
O êxtase das aves altas anunciando o fervor
de um beijo. De um afago. De uma carícia.
O hálito das corolas. As sépalas. Os estames.
O brilho e o odor silvestre da resina. A relva sedosa.
A primavera inebriada com sua própria brisa.

Em ti o menear da terra. As eiras. O feno flamante.
O irromper dos brotos. O despertar dos cálices.
A embriaguez do nardo. E da acácia, festiva.
O matiz das cores na várzea repercutido.
O som dos mananciais posto a descoberto.
O manar das fontes em euforia.
Os céus azuis a derramarem hinos.
O trinado agudo da andorinha.
O acenar obstinado dos choupos.
As centelhas rubras do crepúsculo.
O perfume juvenil das vinhas.

Em ti o delírio das ondas. Das espumas.
As fogueiras ateadas. Os aromas fulvos.
O sopro das chamas. O pão aceso. As espigas.
Os campos de lilases que se estendem
numa queimadura de aurora.
As pétalas humedecidas.
O incêndio azul do orvalho.
A alvura da açucena na manhã florida.

Em ti, amada, celebro a memória

de todas as coisas vivas.

Gonçalo Salvado

Frente a frente
Janeiro 20, 2012

Nada podeis contra o amor,
contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis.
E é tão pouco.

Eugénio de Andrade

A condenação
Dezembro 16, 2011

Cansado da poesia,

o poeta levou os seus poemas

para junto de um rio.

.

Queria rasgar os versos

um por um,

dilacerar a palavra,

truncar a ideia,

desfibrar o coração.

.

Para o fim da poesia,

procurou um rio que não tivesse nome.

Teria que ser assim :

junto a um  rio sem nome.

.

Nele afogaria a letra,

dissolveria a tinta,

liquefaria rima e metáfora.

.

Andou, cirandou : mas onde quer

que corresse um fio de água

fluía junto um nome

como se toda a água nascesse da palavra.

.

Deu volta ao mundo,

chegou onde não havia mais mundo :

em nenhum lado

figurava o inominado riachinho.

.

Cansado,

regressou à sua aldeia

e reincidiu na sua inicial angústia.

Ali, no pequeno ribeiro de sua terra natal,

ele sentou o seu desespero

e decepou os cadernos,

desmembrou a escrita

e afogou os papéis

até que deixaram de respirar.

.

Chegou-se um peixe

e, de um golpe, comeu um verso.

No seguinte instante,

lhe cresceram asas

e o peixe soltou um voo de garça

para ganhar os vastos céus.

.

Dos papéis que restavam em suas mãos

emergiu um braço de mulher

que, em dissolvente carícia,

por sonhos o fez viajar.

.

Nessa noite,

de regresso a si mesmo,

o poeta

escreveu derradeiros versos

para matar de vez a poesia.

.

Acedeu, por fim,

à pequena morte do sono,

desconhecendo

que, mesmo adormecido,

dentro de si

seguia fluindo

o único rio sem nome.

Mia Couto

Como só a ti amaria
Setembro 18, 2010

Vieste sem te anunciares,

sem que precisasse de ti,

sem sentir a tua falta,

de mansinho,

como uma brisa suave.

E quando pensei em ti

já aqui estavas,

já me faltavas,

já te queria beijar.

 

O meu coração fechado era aberto,

a minha vida contada estava em branco.

Haviam palavras por dizer,

mãos que tinham muito por tocar.

 

Acordei e descobri que te queria,

num desejo que é mais do que desejo.

Em cada carícia sobre a tua pele,

e em cada beijo demorado,

um desejo de ser profundo,

tão profundo quanto o mais profundo mar…

 

Em cada beijo demorado,

ser mais do que eu,

dar-te mais do que tenho,

misturar-me mais do que em ti,

sermos mais do que um.

 

A cada beijo demorado,

sermos mais do que nós,

vontade mais do que nossa,

de nos despirmos de tudo,

e encontrar no fundo do olhar

o que existe para além de nós que nos tocamos.

 

A cada beijo amar-te a ti,

como só a ti amaria,

nem que para isso só tivesse este momento.

 

Ah! Quem te colocou no meu caminho?

João Tiago

Ternura
Julho 23, 2008

Eu te peço perdão por te amar de repente

embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos,

das horas que passei à sombra dos teus gestos,

bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos,

das noites que vivi acalentado

pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo.

Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente

e  posso te dizer que o grande afeto que te deixo

não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas,

nem as misteriosas palavras dos véus da alma…

É  um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias,

e  só te pede que te repouses quieta, muito quieta,

e  deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade

o olhar extático da aurora.

alone

 Vinícius de Moraes