Espelho
Fevereiro 26, 2017

 

Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É de um rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

DSC00761

Eugénio de Andrade

Príncipe
Dezembro 9, 2016

Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e uma
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

 

mulher-pensativa

Ana Hatherly      em    “Um Calculador de Improbabilidades”

 

Talvez de noite
Novembro 27, 2016

À minha volta tudo envelheceu

como se fosse eu, e no entanto

uma casa, ou um espaço em branco

entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada

surge com a sua própria forma.

Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais,

a lembranças extenuadas,

às trevas do corpo, lúcidas,

latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo ‘palavras’ porque

não sei que coisa chamar

à mudez do mundo.

E digo  ‘sentido’ sufocado

sob o pensamento

tentando respirar

a golpes de coração,

agora que se desmorona a casa

sobre todas as palavras possíveis.

jardim-de-um-mosteiro_thumb

Manuel António Pina

III
Abril 13, 2016

Saio de casa
e deito-me no chão,
inocente,
liberto do peso das palavras
e da Primavera.
.
Encontrei enfim a porta secreta
que liga o sonho dos vivos
ao que há de mais belo na morte
– esta embriaguez com boca
do hálito da terra.
.
Morte verdadeira, para quê?

dreaming_myself_away_by_bellatina

José Gomes Ferreira

A mulher mais bonita
Agosto 21, 2015

estás tão bonita hoje.
quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim,
quero dizer que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas, a minha voz nomeia-te para descrever a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, em “A Casa, a Escuridão”

Carta ao Filho
Julho 19, 2015

Não vivas sobre a terra como um estranho,
um turista no meio da natureza.
Habita o mundo como a casa do teu pai.
Crê na semente, na terra, no mar.
mas acima de tudo crê nas pessoas.
Ama as nuvens,
as máquinas,
os livros,
mas acima de tudo ama o homem.
Sente a tristeza do ramo que murcha,
do astro que se extingue,
do animal ferido que agoniza,
mas acima de tudo
sente a tristeza e a dor das pessoas.
Alegra-te com todos os bens da terra,
com a sombra e a luz,
com as quatro estações,
mas acima de tudo e a mãos cheias
alegra-te com as pessoas.

Nazim Hikmet

A @[100000063776644:2048:Cristina Carmona-Franz] pediu-me que postasse um poema e indicasse 4 amigos. A minha escolha é a seguinte:  Porque creio que são estes os valores a passar aos nossos filhos. Boa noite, com Nazim Hikmet heart emoticon  CARTA AO FILHO  Não vivas sobre a terra como um estranho Um turista no meio da natureza. Habita o mundo como a casa do teu pai. Crê na semente, na terra, no mar. mas acima de tudo crê nas pessoas. Ama as nuvens, as máquinas, os livros, mas acima de tudo ama o homem. Sente a tristeza do ramo que murcha, do astro que se extingue, do animal ferido que agoniza, mas acima de tudo Sente a tristeza e a dor das pessoas. Alegra-te com todos os bens da terra, Com a sombra e a luz, com as quatro estações, mas acima de tudo e a mãos cheias alegra-te com as pessoas.  Nazim Hikmet  E o nome dos amigos que indico são: @[100006520182784:2048:Julia Teixeira] , Teresa Pereira , Conceição Militão e @[1370736139:2048:Conceição Cabeças]

Não deixeis um grande amor
Maio 10, 2015

Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor

chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidencias negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo

K. Gibran

José Tolentino Mendonça      em     ‘Longe não Sabia’

O teu olhar sustenta o céu imenso
Dezembro 11, 2013

Andas pela casa com passos leves,

pousas a mão no colo, sorris. E eu

acredito que o mundo te acompanha.

Como ecos do que fazes, formam-se

nuvens sobre o mar e cantam pássaros

em países distantes. Sei que é assim.

O teu olhar sustenta o céu imenso,

a luz dos astros, todas as galáxias.

mulherrosa

José  Mário  Silva

Verso sem despedida
Outubro 15, 2013

Haverás de bater em minha porta

quando a noite chegar serena, fria,

carregando a paixão pesada e morta,

relembrarás a minha companhia.

.

Distante da esperança que conforta,

perto do desengano que crucia,

verás que toda volta à rua é torta,

e a casa encontrarás sempre vazia.

.

Tu chorarás ao ver o meu desprezo

sem poder reduzir, sequer, o peso

da cruz que colocaste em minha vida.

.

E nessa hora de dor que mortifica,

a poetisa parte… o verso fica

sem ódio, sem rancor, sem despedida…

outono_londres_c2a9imagoverbalis

Sarah Rodrigues

entrego-te as palavras
Setembro 17, 2013

entrego-te as palavras mais brandas
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite

entrego-te as palavras com a redonda luz
das maçãs sobre a mesa e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos sem ajuda recordar
mas que habital a mais frágil memória de nós próprios

palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele

e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor

porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros o chão o tecto

como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve

anoitecer

ALICE VIEIRA,  em  DOIS CORPOS TOMBANDO NA ÁGUA (Caminho, 2011)