A um ti que eu inventei
Fevereiro 22, 2018

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-la em finíssima aguada

com um pincel de marta.

.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger da chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

.

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba ou oiça,

Um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

.

Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.

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António Gedeão

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O último Poema
Setembro 16, 2017

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

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Manuel Bandeira    em   Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas

Amo o teu túmido candor de astro
Agosto 13, 2015

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hábito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

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António Ramos Rosa

A Palavra não tem Olhos
Agosto 6, 2013

A Palavra não tem olhos mas pálpebras de neblina

às vezes transparente. Por isso ela caminha lentamente

como uma sombra em corredores de sombra

e treme como se fosse cair ou perder o seu hálito

.

Ela quer ler a sua própria chama

que às vezes não é mais do que um archote de cal

Nunca sabe o dia da semana porque o seu calendário é o vento

e arde sob a chuva da sombra como uma lâmpada trémula

.

Mas o seu rosto não se vê em nenhum espelho

e embate na porta atrás da qual se ouvem ecos

que não são de ninguém ou já foram e talvez sejam de retratos

e procura levantar a parede que falta sempre num dos seus lados

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António Ramos Rosa

Talvez
Fevereiro 16, 2012

Talvez um destes dias
ao regressar por palavras desertas
de ausentes poemas
não encontre ninguém
real
que me abra a porta.

Talvez essa porta presa por um fio
no limiar do vento
se tenha já desvanecido
entre brumas e cansaços
ou talvez nem tenha existido,
um dia.

Os meus olhos cegos de ver
secarão, talvez.
O meu nome ter-se-á perdido
das vozes dos pássaros e ninguém
mais o pronunciará.

Há nisso um fio de sangue a verter,
uma mancha vermelha em redor de sonhos
desfigurados.
Mas há nisso ainda um leve estremecer,
uma pequena chama
a clamar por um sopro
que a faça incêndio.

LÍDIA BORGES

O teu silêncio
Janeiro 7, 2012

O teu silêncio oculta as mentiras, histórias, que gostarias de contar-me.
Nele guardas as verdades, como jóias.

O teu silêncio oculta o amor que querias abraçar, até ao desespero .
Nele encerras as tuas angústias e lágrimas.

O teu silêncio oculta o caos da paixão.
Nele escondes as chamas que te devoram.

O teu silêncio oculta a verdade, até de ti próprio.
E cais num precipício sem fim…

Luísa L.

O último poema
Outubro 23, 2011

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais,
que fosse ardente como um soluço sem lágrimas,
que tivesse a beleza das flores quase sem perfume,
a pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos,
a paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

Soneto de Fidelidade
Julho 17, 2011

De tudo ao meu amor serei atento
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive,
quem sabe a solidão, fim de quem ama,

eu possa me dizer do amor (que tive):
que não seja imortal, posto que é chama,

mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Morais

Seus olhos
Junho 26, 2011

Seus olhos – se eu sei pintar

o que os meus olhos cegou –

não tinham luz de brilhar,

era chama de queimar;

e o fogo que a ateou

vivaz, eterno, divino,

como facho do Destino.

Divino, eterno! – e suave

ao mesmo tempo: mas grave

e de tão fatal poder,

que, um só momento que a vi,

queimar toda a alma senti…

Nem ficou mais de meu ser,

senão a cinza em que ardi.

 

Almeida Garrett (Folhas Caídas)