Hora H
Abril 6, 2020

A Primavera cheira a laranjas.

(Há umas granadas de mão, redondas e pequenas, a que chamam laranjas.)

O cheiro das laranjas deixa a noite luarenta de mistérios.

(Dizem que as noites de luar são as melhores para bombardeamentos aéreos.)

H

António Gedeão

Germinação
Janeiro 7, 2020

Entre duas ruas paralelas
nossas conexões transversais aproximaram
o contato de nossos lábios e de nossas mãos
que se transformam em uma arte de expressão geométrica
com traços de cubismo:
vários vértices com sensações de infinitude
vários ângulos com encaixe de elevada estruturação

aprofundamos em anestesia
enquanto verticalizávamos nossos sentidos
investindo em uma profundidade de sentimentos superior
aos abismos de corações e mentes distraídas

nossa troca de olhares ficou surrealista:
teu cheiro penetrando em minhas vísceras
depositando em meu tecido adiposo
desregulando minha frequência cardíaca
com a profunda vibração de tuas cordas vocais
abraçando meu miocárdio

nossos corpos em contato se tornaram um único abrigo
nossa confluência de ideias formaram fortalezas de harmonia
nossa taxa metabólica igualou nossas funções vitais
e fomos capazes de rejuvenescer
simultaneamente
lado a lado

enquanto me abraçava revitalizando
cada célula corporal,
aprofundamos
ultrapassando os limites para mergulhos recreacionais

molhamo-nos ao toque do mar
secamo-nos à luz do sol
pulsantes:
amadurecemos em frutos

olhosnosolhos

Larissa Vahia

Entre Março e Abril
Abril 4, 2013

flor5

Que cheiro doce e fresco,

por entre a chuva,

me traz o sol,

me traz o rosto,

entre Março e Abril,

o rosto que foi meu,

o único

que foi afago e festa e primavera?

.

Oh cheiro puro e só da terra!

Não das mimosas,

que já tinham florido

no meio dos pinheiros;

não dos lilases,

pois era cedo ainda

para mostrarem

o coração às rosas;

mas das tímidas, dóceis flores

de cor difícil.

entre limão e vinho,

entre marfim e mel,

abertas no canteiro junto ao tanque.

.

Frésias,

ó pura memória

de ter cantado –

pálida, fragrantes,

entre chuva e sol

e chuva

– que mãos vos colhem,

agora que estão mortas

as mãos que foram minhas?

Eugénio de Andrade

Dia 255 (excerto)
Julho 3, 2012

Esta manhã foi a mais bela de todas as manhãs.
… Cheia de ti. Do teu brilho,do teu cheiro, do teu
sorriso igual ao das maçãs.
Ainda tenho nos meus olhos o brilho dos teus
olhos. Nunca, como hoje, desejei estar contigo
numa ilha. Uma ilha deserta, mas cheia de nós.
E à tua pergunta natural: “o que é que estamos
aqui a fazer?”, eu responderia também
naturalmente: “se cá estamos,

é porque fazemos cá falta!”.

JOAQUIM PESSOA,  em  ANO COMUM (Litexa, 2011)