Abril 28, 2018

Nas estantes os livros ficam

(até se dispersarem ou desfazerem)

enquanto tudo

passa. O pó acumula-se

e depois de limpo

torna a acumular-se

no cimo das lombadas.

Quando a cidade está suja

(obras, carros, poeiras)

o pó é mais negro e por vezes

espesso. Os livros ficam,

valem mais que tudo,

mas apesar do amor

(amor das coisas mudas

que sussurram)

e do cuidado doméstico

fica sempre, em baixo,

do lado oposto à lombada,

uma pequena marca negra

do pó nas páginas.

A marca faz parte dos livros.

Estão marcados. Nós também.

pó 2

Pedro Mexia

Porque a recusas.
Janeiro 8, 2018

Porque a recusas, esta cidade despovoa-se, o granito
torna-se subitamente uma resina pegajosa e hostil.

As gaivotas fogem para o mar com gritos roucos, um
arrepio atravessa as ruas como sinal de inverno.

Encontro as portas fechadas ao longo das paredes; um
curto circuito acaba de apagar o sol, a lua vazia ergue
uma maré que escava furiosamente as praias.

O espaço minga, as folhas secas tombam com um riso
grato: sabem que foram nas árvores a última primavera.

Um coração está pousado no solo e eu tropeço na sua
derradeira pulsação. Já o vi algures, creio, antes do medo.

Foz

Egito Gonçalves    em    Luz Vegetal

Balada dos Amigos Separados
Dezembro 5, 2017

Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangular-nos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?

amigos

Mário Dionísio   em    ‘As Solicitações e Emboscadas’

Não deixeis um grande amor
Maio 10, 2015

Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor

chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidencias negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo

K. Gibran

José Tolentino Mendonça      em     ‘Longe não Sabia’

As palavras interditas
Fevereiro 14, 2013

Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

barco 2
Eugénio  de  Andrade

Wüsste ich nicht
Outubro 28, 2012

Einfach abhauen sollte man

einfach weggehen

in eine andere Stadt

zu anderen Menschen

zu einem neuen Leben.

Wüsste ich nicht

dass ich mich mitnehmen muss

dass ich mich nicht zurücklassen kann

wie einen alten Stuhl

ich würde es versuchen

ein neues Leben

in einer anderen Stadt.

Anne  Steinwart

.

Devia ser possível ir

simplesmente embora

para outra cidade

para outras pessoas

para uma vida nova.

Se eu não soubesse

que tenho de me levar

que não posso deixar-me ficar

como uma cadeira velha,

eu tentaria começar

uma vida nova

numa outra cidade.

Poema sem esperança
Outubro 1, 2009

retrovisor

Toda a esperança que tive a dividi

por quantos a quiseram receber.

Deles espero agora que a devolvam

com novo rosto e acrescentando juro.

A esperança era fingida, toda feita

de conscientes manhas e de enganos,

tão bem arquitectada que passava

por sincera, vivida, verdadeira.

Era uma esperança imposta, necessária

para as voltas dos dias e das noites,

sem roupagens, sem véus, sem adereços

como na estatuária se apresenta.

Uma esperança sem esperança, alimentada

a soro e drogas no hospital das letras:

no escuro, ensimesmada como um feto;

na luz, extravasada como adulto.

Transferindo-me a outros me recolho

e me fico, de ouvidos apurados,

num solitário andar entre automóveis

nas poluídas ruas da cidade.

 

António Gedeão

 

Obstáculos
Maio 20, 2009

Vou caminhando por uma vereda.

Deixo que os meus pés me levem.

Os meus olhos pousam-se nas árvores, nos pássaros, nas pedras.

No horizonte recorta-se a silhueta de uma cidade.

Fixo nela o olhar para a distinguir bem.

Sinto que a cidade me atrai. Sem saber como, dou-me conta que nesta cidade posso encontrar tudo o que desejo.

Todas as minhas metas, os meus objectivos e os meus logros.

As minhas ambições e os meus sonhos estão nesta cidade.

Aquilo que eu quero conseguir, aquilo de que necessito, aquilo que eu mais gostaria de ser, aquilo a que aspiro, aquilo que tento, aquilo pelo que trabalho, aquilo que sempre ambicionei, aquilo que seria o maior dos meus êxitos.

Imagino que tudo está nessa cidade.

Sem duvidar, começo a caminhar até ela.

Pouco depois de começar a andar, a vereda põe-se a subir pela encosta acima.

Canso-me um pouco, mas não importa.

Sigo.

Avisto uma sombra negra, mais adiante, no caminho.

Ao aproximar-me, vejo que uma enorme vala impede a minha passagem.

Receio… Duvido.

Desgosta-me não conseguir alcançar a minha meta facilmente.

De todas as maneiras, decido saltar a vala.

Retrocedo, tomo impulso e salto…

Consigo passá-la.

Recomponho-me e continuo a caminhar.

Uns metros mais adiante, aparece outra vala.

Volto a tomar impulso e também a salto.

Corro até à cidade: o caminho parece desimpedido.

Surpreende-me um abismo que detém o meu caminho.

Detenho-me.

É  impossível saltá-lo.

Vejo que num dos lados há tábuas, pregos e ferramentas.

Dou-me conta de que estão ali para construir uma ponte.

Nunca fui habilidoso com as minhas mãos…

… penso em renunciar.

Olho para a meta que desejo… e resisto.

Começo a construir a ponte.

Passam horas, dias, meses.

A ponte está feita.

Emocionado, atravesso-a

e  ao chegar ao outro lado… descubro o muro.

Um gigantesco muro frio e húmido rodeia a cidade dos meus sonhos…

Sinto-me abatido…

Procuro a maneira de o evitar.

Não há forma.

Tenho de o escalar.

A cidade está tão perto…

Não deixarei que o muro impeça a minha passagem.

Proponho-me trepar.

Descanso uns minutos e tomo ar…

Rapidamente vejo,

de um lado do caminho,

uma criança que olha para mim como se me conhecesse.

Sorri-me com cumplicidade. Faz-me vir à memória como eu próprio era… quando criança.

Talvez por isso me atrevo a expressar em voz alta a minha queixa.

– Porquê tantos obstáculos entre o meu objectivo e eu?

A criança encolhe os ombros e responde-me.

– Porque mo perguntas a mim ?

Os obstáculos não existiam antes de tu chegares…

Foste tu que trouxeste os obstáculos.

Jorge Bucay em  contos para pensar