Acidentes de Guerra
Junho 7, 2020

Sacudo grão levíssimo
de cima do papel

Não sei se pó,
se uma pequena cinza
que assim se insinuou
neste caderno

a emoção, passado, defesa, antes na prateleira,
preso a outros cadernos, outros livros,
esquecido do olhar
e das pequenas emoções
de dentroÉ livre agora,
e o grão que projectei no ar
entre polegar e dedo médio em riste:
lança-chama de fluídos inflamáveis

com passado a assaltar,
sem defesa possível de vencer,
nem acertado alvo
que resista

livros 1

Ana Luísa Amaral    em    What’s In a Name

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
Abril 14, 2020

Escavação
Janeiro 31, 2019

Numa ânsia de ser alguma cousa,

divago por mim mesmo a procurar,

desço-me todo, em vão, sem nada achar,

e minh’alma perdida não repousa!

.

Nada tendo, decido-me a criar.

Brando a espada, sou luz harmoniosa

e chama genial que tudo ousa

unicamente à força de sonhar…

.

Mas a vitória fulva esvai-se logo…

                                                            E cinzas, cinzas só, em vez de fogo…

– Onde existo que não existo em mim?

.

Um cemitério falso sem ossadas,

noites de amor sem bocas esmagadas –

tudo outro espasmo que princípio ou fim…

bando

Mário de Sá Carneiro

Conformismo
Fevereiro 1, 2016

Pendurado do resto de um cigarro,
– meio aceso, meio ardido –
desfaço-me na cinza dos dias que passam,
sem que eu passe além de mim,
desenhando saudades na penumbra da memória.
.
Saudades de um futuro que o fumo leva
e que dissolvo neste whisky,
velho de mágoas destiladas
nas altas terras das dores silenciadas.
.
Sentado no silêncio frio da pedra solitária,
rumino o lume brando que me cerca,
enquanto olho o mundo
pelas vidraças da alma embaciada,
e, acomodado, reflicto:
– “as coisas são o que são!”.

© Matt Wisniewski

Vítor Bento

Quatro estações
Julho 2, 2014

Há uma impressão de cinza nas mãos

que aperto, com a força do vento, como

se não tivesse passado a sombra que as

anima, levando com ela o sonho em que a vi.

.

E sinto ainda um fulgor de lume nos

meus dedos, como se tivesse voltado

a quente ansiedade de outrora, e a sede

em que o desejo encontrava a sua fonte.

.

Um corpo que passou por mim, e me

esgotou a alma, perpassa na inspiração

em que a vida reencontra um rumo de campo:

.

com a melancolia do outono, a corrupção

do inverno, a maré florida da primavera,

e o êxtase dos frutos na colheita do verão.

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Nuno  Júdice

Camões e a Tença
Abril 25, 2013

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença

seja paga na data combinada

Este país te mata lentamente

País que tu chamaste e não responde

País que tu nomeias e não nasce

.

Em tua perdição se conjuraram

calúnias desamor inveja ardente

e sempre os inimigos sobejaram

a quem ousou seu ser inteiramente

.

E aqueles que invocaste não te viram

porque estavam curvados e dobrados

pela paciência cuja mão de cinza

tinha apagado os olhos no seu rosto

.

Irás ao Paço irás pacientemente

pois não te pedem canto mas paciência

.

Este país te mata lentamente

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Seus olhos
Junho 26, 2011

Seus olhos – se eu sei pintar

o que os meus olhos cegou –

não tinham luz de brilhar,

era chama de queimar;

e o fogo que a ateou

vivaz, eterno, divino,

como facho do Destino.

Divino, eterno! – e suave

ao mesmo tempo: mas grave

e de tão fatal poder,

que, um só momento que a vi,

queimar toda a alma senti…

Nem ficou mais de meu ser,

senão a cinza em que ardi.

 

Almeida Garrett (Folhas Caídas)