Musa ausente
Novembro 24, 2018

Falta a luz dos teus olhos na paisagem…
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam, à procura
da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
muram a tua ausência.
Sem transparência,
o mesmo rio que te reflectiu
afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu

à hora em que teria amanhecido.

Miguel Torga

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Aquela triste e leda madrugada
Março 17, 2017

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
se acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.

Luiz de Camões

O Amor, meu Amor
Novembro 21, 2016

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

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Mia Couto    em    “idades cidades divindades”

Luz
Outubro 13, 2015

Eu sinto-te a ferver dentro de mim,

Poesia.

Tu és a voz

resignada, triste, insatisfeita,

sei lá,

de um desejo de plenitude,

de uma espera desesperada,

de um grito no deserto.

.

A luz que procuro foge-me.

Só me deixa ver

as suas cintilações efémeras,

só me deixa imaginar

a sua claridade,

e foge…

.

Até quando?

Até quando esta ausência

premeditada e perversa?

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Diana  Sá

De novo a claridade
Abril 4, 2015

Veio de novo a Primavera pelo labirinto das ruas,

mas acordou a paisagem sem demora.

É um tempo à medida dos habitantes da cidade,

conhece os seus percursos

ao pormenor.

.

Não veio em voo altivo da aurora indiferente,

seguiu por avenidas

onde não a conhecem,

por becos onde não a esperavam.

Como se perdem sem conta os passos dos transeuntes

em diversas vias

mas encontram sempre a claridade…

.

Fez de cada varanda uma falésia sobre o oceano,

de cada ilha um novo arquipélago

sem sombras,

é a alma comum da urbe.

Não está acompanhado quem se encontra acompanhado,

mas quem recebeu a Primavera

de verdade.

Por vielas onde se dissimulam criminosos,

por alamedas

em que as árvores são fantasmas

ameaçadores,

não há quem a não tenha acolhido em sua casa.

E a luz cobriu o céu à mesma hora.

pessegueiro

Joel  Henriques    em    Terra Prometida

Se cada dia cai
Abril 30, 2012

Se cada dia cai, dentro de cada noite
há um poço
onde a claridade está presa.
.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra

e pescar luz caída

com paciência.

Pablo Neruda

Receita de Ano Novo
Janeiro 5, 2011

 

 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?).

Não precisa

fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto da esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond De Andrade

 

 

 

 

I left you
Outubro 27, 2008

I left a bundle of contradictions

lying at your doorstep.

I meant to leave a letter

but I haven´t  found the pen yet

that can write the things I need to say

and all the things I can´t explain

and all the ways I meant to be

and all the hurt inside of me.

But be careful with the bundle

because it wasn´t wrapped with care.

It´s ready to unravel.

Any time.

Any where.

And somewhere in the middle,

where  Clarity should be,

you´ll find the Contradiction

that is the heart

of me.

.

 Autor desconhecido

Ver claro
Setembro 18, 2008

Toda a poesia é luminosa, até

a  mais obscura.

O  leitor é que tem às vezes,

em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.

E  o nevoeiro nunca deixa ver claro.

Se  regressar

outra vez e outra vez

e  outra vez

a  essas  sílabas acesas

ficará cego de tanta claridade.

Abençoado seja se lá chegar.

 Eugénio de Andrade