Chorosos versos meus
Maio 13, 2014

Chorosos versos meus desentoados,

sem arte, sem beleza e sem brandura,

urdidos pela mão da Desventura,

pela baça tristeza envenenados.

.

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

no mundo esquecimento, a sepultura;

se os ditosos vos lerem sem ternura,

ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

.

Não vos inspire, ó versos, cobardia

da sátira mordaz o furor louco,

da maldizente voz a tirania.

.

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

que não pode cantar com melodia

um peito, de gemer cansado e rouco.

Bocage

Bocage

Voz
Julho 1, 2013

Era uma voz que doía,

mas ensinava.

Descobria,

mal o seu timbre se ouvia

no silêncio que escutava.

.

Paraísos, não havia.

Purgatórios, não mostrava.

Limbos, sim, é que dizia

que os sentia,

pesados de cobardia,

lá na terra onde morava.

.

E morava neste mundo

aquela voz.

Morava mesmo no fundo

dum poço dentro de nós.

penumbra

Miguel  Torga

Data
Agosto 5, 2012

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça

Sophia Mello Breyner