A hora do cansaço
Novembro 16, 2019

As coisas que amamos,

as pessoas que amamos

são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável

no limite de nosso poder

de respirar a eternidade.

.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,

dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,

numa outra (maior) realidade.

.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nós cansamos, por um outro itinerário,

de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.

Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

eternidade

Carlos Drummond de Andrade

As Coisas
Agosto 3, 2019

Por aqui, por ali, à minha volta,

sobem montanhas de coisas antigas,

são quadros, são caixinhas, e das vigas

balançam fardas velhas de uma escolta.

.

Bengalas bem talhadas, uma ânfora,

trazem letras trançando-se sem nome,

nomes voam sem dono e a hora some

de um pêndulo em que o dobre cheira a cânfora.

.

Caveiras de marfim, pequenas tíbias,

ossinhos despojados de oratórios,

cachinhos e navetas e ostensórios,

tapetes que suspiram poeiras líbias,

.

junto a um nobre enrolado numa toga

cujo pano desfez-se em bronze velho

e que canta sem voz num vão de espelho

à luz de um castiçal de sinagoga,

.

enquanto um buda branco brilha e ri

e os meus olhos que bóiam numa taça

vão colhendo na sede do que passa

as flores que eu sonhei que já perdi.

intuition

Alexei Bueno

 

Biografia
Dezembro 6, 2014

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

6409flores

Alberto Caeiro

A espantosa realidade das cousas
Março 12, 2014

A espantosa realidade das cousas
é a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
e é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
e quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
e todos os meus poemas são diferentes,
porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
porque o penso sem pensamentos
porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
e eu admirei-me, porque não julgava
que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
o valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro,  em  “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Da voz das coisas
Janeiro 17, 2012

Só a rajada de vento

dá som lírico

às pás do moinho.

.

Somente as coisas tocadas

pelo amor das outras

têm voz.

Fiama Hasse Pais Brandão

Coisas
Setembro 30, 2010

Existem coisas que guardo para mim.

Existem coisas que não conto a ninguém,

eu as guardo para mim.

Eu as salvo do mundo,

as transformo em nós e laçadas

na medida em que teço o véu da memória.

Às vezes eu faço diamantes com elas…

Existem outras coisas também,

outras minhas,

essas são poesias.

Pedro Pizelli

Quanta coisa…
Setembro 24, 2008

Quanta coisa quis fazer

e  quanta coisa não fiz

de um lado Deus permitiu

de outro lado Deus não quis

.

ou  então não percebi

o  que me dizia Deus

desatento a seus projectos

por só me ocupar dos meus

.

ou  nem isto nem aquilo

rodou assim o destino

puxem a corda que queiram

e  a gosto badale o sino

.

Agostinho da Silva