Felicidades
Maio 25, 2017

não percas tempo
com os fragmentos
jamais refarás
o que se quebrou

tu já não és tu
nada é o que já foi
nada será o que
podia ter sido

há um começo tardio
para um final próximo
é essa a estória do depois

é tarde muito tarde
longe vão as manhãs
só te resta esperar
e reaprender os dias

felicidades
flores 4

A. H. Cravo

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Os silêncios essenciais
Setembro 13, 2015

do começo
só o que te contarem
o fim
nunca o poderás contar

no entanto
nascer e morrer
são os momentos
mais importantes da tua vida

nada mais és que o intervalo
entre dois silêncios essenciais

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A. H. Cravo

Em teu louvor
Setembro 12, 2010

Hoje é que percebi : sigo esquecido e alheio,

e há muito tempo já que não falo de nós.

Não precisas no entanto de ter nenhum receio,

se versos não te dou, é que hoje, em meu enleio,

tudo esqueço por ti… quando estamos a sós…

Ontem, era o começo, era o sonho, ansiedade!

A vida uma esperança a repartir por dois…

Hoje… hoje é tão boa a nossa intimidade

que é bastante viver, e a própria realidade

não nos deixa pensar no que virá depois…

  …

Ontem, fiz do meu verso uma arma de conquista,

e teci confidências preludiando o amor…

Hoje, (perdoa se o homem sobrepuja o artista!),

quando em tua nudez, surge bela e imprevista,

minha alma em minhas mãos tem ânsias de escultor.

Vivamos!.. E prometo então para mais tarde

mil versos,(sabes bem que um dia hei-de fazê-los…).

Agora, basta que te deseje e te ame sem alarde

a mergulhar na sombra o rosto em teus cabelos.

Mais tarde, sim, mais tarde, hás-de tê-los, querida,

ressonâncias de amor, versos puros e francos,

cantos de ave ao sol poente, última ária da vida,

quando a noite cerrar meus olhos, comovida,

e o luar tingir de prata os teus cabelos brancos!…

Agora, não… Agora a vida é bela, é louca,

nos sentidos em festa e em sons primaveris;

é o beijo que procuro e mordo em tua boca!

…é a sombra que se vai… é a noite curta e pouca…

(são tão curtas as noites quando se é feliz!)

Sou assim, quando vivo não escrevo, vivo!

E não brotam meus versos de desejos vãos…

Se tenho em minhas mãos o teu corpo cativo,

é inútil insistir, meu pensamento é esquivo.

Só tu existes, tu! e a ânsia das minhas mãos…

Ontem, dava~te versos, versos que relias

com um estranho langor nos olhos extasiados…

Hoje, encho de beijos tuas mãos vazias,

e esquecidos do tempo, vão rolando os dias

…e as noites vão rolando em teus olhos cerrados!

Hoje é que percebi num segundo de sonho :

já não faço mais versos sobre o nosso amor…

Mas, que importa? Se vejo o teu olhar risonho…

os versos que em silêncio em teu corpo componho

são os mais belos talvez que faço em teu louvor!

J. G. Araújo Jorge

De quem as mãos
Fevereiro 4, 2010

De quem as mãos

trocadas minhas tuas

entrelaçadas nuas

dadas?

Onde é que eu já não sou

e tu já és?

Que fronteira de nós?

Não se explica no gesto nem na voz

o ponto onde eu começo e tu acabas.

Rosa Lobato de Faria

Da maneira mais simples
Outubro 20, 2009

fogo

É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode

acontecer da maneira mais simples :

umas gotas de chuva no cabelo.

Aproximas a mão, os dedos

desatam a arder inesperadamente,

recuas de medo. Aqueles cabelos,

as suas gotas de água são o começo,

apenas o começo. Antes

do fim terás de pegar no fogo

e fazeres do inverno

a mais ardente das estações.

 

Eugénio de Andrade

F.P.
Dezembro 3, 2008

De tudo ficam três coisas:

a certeza de que estamos sempre começando…

a certeza de que precisamos de continuar…

a certeza de que seremos interrompidos

antes de terminar…

………

Portanto devemos

fazer da  interrupção um caminho novo…

da queda um passo de dança…

do medo uma escada…

do sonho uma ponte…

da  procura, um encontro…

aves

 Fernando Pessoa

Da maneira mais simples
Setembro 30, 2008

É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode

acontecer da maneira mais simples :

umas gotas de chuva no cabelo.

Aproximas a mão, os dedos

desatam a arder inesperadamente,

recuas de medo. Aqueles cabelos,

as suas gotas de água são o começo,

apenas o começo. Antes

do fim terás de pegar no fogo

e fazeres do inverno

a mais ardente das estações.

 Eugénio de Andrade