apenas um soneto
Outubro 26, 2017

chuva-casal4

 

O delicado desejo que te doura
e nos dura na pele quando anoitece
é contra a nossa vida que se tece
e é no verso que vive e se demora.

Amor que não tivémos nem nos teve
veio-nos chamar agora. De repente
fez-se névoa à palavra do presente
e luz teu corpo que toquei de leve.

Mas se arde na memória da canção
o corpo que me deste e me fugiste,
o verso é outro modo de traição

por que minto ao que nunca tu mentiste.
E enganamos assim o coração,
disfarçando de mitos o que existe.

Luís Filipe de Castro Mendes

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Herança
Outubro 12, 2017

É a minha herança: o sorriso,

o azul de uma pedra branca.

Posso juntar-lhe, ao acaso da memória,

um ramo de madressilva inclinado

para as abelhas que metodicamente fazem

do outono o lugar preferido do verão,

um melro que deixou o jardim público

para fazer ninho num poema meu,

um barco chamado Cavalinho na Chuva

à espera de reparação no molhe da Foz.

Deve haver mais alguma coisa,

não serei tão pobre, cometemos sempre

a injustiça de não referir, por pudor,

coisas mais íntimas: um verso de Safo,

traduzido por Quasimodo, a mão

que por instantes nos pousou no joelho

e logo voou para muito longe,

as cadências do coração,

teimoso em repetir que não envelheceu.

suave

Eugénio de Andrade

Pavio
Setembro 28, 2017

cora

 

És uma candeia ao canto do quarto
às vezes longe, às vezes perto.
Trazes o brilho e a coragem,
demonstras a fé nesta viagem…

– E eu estou aqui deitado,
às vezes ao frio, às vezes tapado
(cresce em mim a tempestade)
– Aqueço assim a saudade.

E no frio desta caverna
húmida e teimosamente eterna,
pingo a pingo, hoje, amanhã e depois,
lembro as vidas que não tivemos os dois.
Apenas este pavio
veio acalmar este frio
nas mãos, na mente e na alma.
Uma voz suave que acalma…

Cêra.
Quimera.
Sonho.
Coração tamanho.

António

Perdi os meus fantásticos castelos
Julho 27, 2017

Perdi os meus fantásticos castelos

como névoa distante que se esfuma…

Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:

quebrei as minhas lanças uma a uma!

.

Perdi minhas galeras entre os gelos

que se afundaram sobre um mar de bruma…

-Tantos escolhos! Quem podia vê-los?-

Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

.

Perdi a minha taça, o meu anel,

a minha cota de aço, o meu corcel,

perdi meu elmo de ouro e pedrarias…

.

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas…

Sobre o meu coração pesam montanhas…

Olho assombrada as minhas mãos vazias…

olho-200

Florbela Espanca

O Amor
Julho 14, 2017

 

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante e os olhos encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente divino: o amor.

Se um dia tiver que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras,entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir em pensamento sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado… se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados..

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite… se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado…

 Se você tiver a certeza que vai ver a pessoa envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela…

Se você preferir morrer antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. É uma dádiva.

 Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram e por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio.

Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.

Amar é...

Vinicius  de  Moraes

Não sei como dizer-te
Março 29, 2017

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos

se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura. Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.
margaridas
Herberto Hélder

Tenho fome
Janeiro 19, 2017

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.
.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
.
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.

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Pablo Neruda

Cantiga para não morrer
Dezembro 21, 2016

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

fugaz

Ferreira Gullar   in   “Dentro da Noite Veloz

Talvez de noite
Novembro 27, 2016

À minha volta tudo envelheceu

como se fosse eu, e no entanto

uma casa, ou um espaço em branco

entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada

surge com a sua própria forma.

Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais,

a lembranças extenuadas,

às trevas do corpo, lúcidas,

latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo ‘palavras’ porque

não sei que coisa chamar

à mudez do mundo.

E digo  ‘sentido’ sufocado

sob o pensamento

tentando respirar

a golpes de coração,

agora que se desmorona a casa

sobre todas as palavras possíveis.

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Manuel António Pina

Não te amo
Outubro 28, 2016

Não te amo, quero-te: o amor vem da alma.
E eu na alma – tenho a calma,
a calma do jazigo.
Ai, não te amo, não.
.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
a trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não.
.
Ai, não te amo, não; e só te quero
de um querer bruto e fero
que o sangue me devora,
não chega ao coração.
.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
que lhe luz na má hora
da sua perdição?
.
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
do mau feitiço azado
este indigno furor.
Mas oh, não te amo, não.
.
E infame sou, porque te quero; e tanto
que de mim tenho espanto,
de ti medo e terror…
Mas amar!… não te amo, não.

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Almeida Garrett