Ânsia
Janeiro 20, 2015

 

Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma.

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo.

espuma

Mia Couto  

 

em   “Raiz de orvalho e outros poemas”

Ultimato
Outubro 2, 2011

O país dança?, disse-lhe,

tropeçando na sombra

que o seu vestido carimbava

no largo da Matriz.

Mas o país alegou cansaço,

pé de chumbo, futuro

comprometido.

O país dança?, tornei

a coberto das canas

que os céus assobiavam, mas o país não dançava

e nas trevas circundantes

as silvas o emboscavam

com juras de morte ao campo

que fora do canto segador.

O vento angariava palavras para partir.

O país dança? Pois dance agora

ou cale-se para sempre

e decida-se depressa

enquanto a música não cessa

ou entre nós

está tudo acabado.

Rui Lage em  “Um Arraial Português”

Noite
Fevereiro 22, 2010

Noite de folha em folha murmurada,

branca de mil silêncios, negra de astros,

com desertos de sombra e luar, dança

imperceptível em gestos quietos.

Sophia de Mello Breyner Andersen