Ascensão
Abril 14, 2019

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
– até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

espiral

João Rui de Sousa

Devagar te amo
Março 6, 2018

Devagar te amo, e devagar assomo
os dedos à altura dos olhos, do cabelo
dos anéis de outro turno, que é só meu
por querê-lo, meu amor, como a ti mesma quero
nos tempos de passado e sem futuro.
Devagar avanço um dealbar de dias
que vida seriam – mesmo que morto, à noite,
eu voltasse amargurado mas presente,
calado e quedo, e devagar amando.

amores-impossiveis-3162451-1238

Pedro Tamen      em    “Rua de Nenhures”.

O mar dos meus olhos
Março 9, 2016


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
não pela cor
mas pela vastidão da alma.
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos,
ficam para além do tempo
como se a maré nunca as levasse
da praia onde foram felizes.

 

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam

as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma.


Adelina Barradas de Oliveira 

entrego-te as palavras
Setembro 17, 2013

entrego-te as palavras mais brandas
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite

entrego-te as palavras com a redonda luz
das maçãs sobre a mesa e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos sem ajuda recordar
mas que habital a mais frágil memória de nós próprios

palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele

e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor

porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros o chão o tecto

como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve

anoitecer

ALICE VIEIRA,  em  DOIS CORPOS TOMBANDO NA ÁGUA (Caminho, 2011)