E de novo
Outubro 28, 2019

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

.

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

.

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

.

E tudo o que me dás eu te devolvo

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

coração 3

Rosa Lobato de Faria

Libertação
Abril 10, 2015

Menino doido, olhei em roda e vi-me

fechado e só na grande sala escura.

(Abrir a porta, além de ser um crime,

era impossível para a minha altura…)

.

Como passar o tempo?… E diverti-me

desta maneira trágica e segura:

pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,

desfiz trapos, arames, serradura…

.

Ah, meu menino histérico e precoce!

Tu, sim!, que tens mãos trágicas de posse,

e tens a inquietação da Descoberta!

.

O menino, por fim, tombou cansado;

o seu boneco aí jaz, esfarelado…

E eu acho, nem sei como, a porta aberta!

criança

José  Régio

A espantosa realidade das cousas
Março 12, 2014

A espantosa realidade das cousas
é a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
e é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
e quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
e todos os meus poemas são diferentes,
porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
porque o penso sem pensamentos
porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
e eu admirei-me, porque não julgava
que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
o valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro,  em  “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Plateia
Outubro 22, 2013

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
a não ser conivente
na farsa do presente
posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
nem talvez a mais certa,
a da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
do que presta
e não presta
nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
quotidiana.
Esta comédia desumana
e triste,
que cobre de soturna maldição
a própria indignação
que lhe resiste.

Morte
MIGUEL TORGA   em  CÂMARA ARDENTE

Às vezes
Fevereiro 25, 2009

sadness16

Às vezes julgo ver nos meus olhos

a  promessa de outros seres

que eu poderia ter sido,

se a vida tivesse sido outra.

……

Mas dessa fabulosa descoberta

só me vem o terror  e  a  mágoa

de me sentir sem forma, vaga e incerta

como a água.

……

 Sophia de Mello Breyner Andersen