Chorosos versos meus
Maio 13, 2014

Chorosos versos meus desentoados,

sem arte, sem beleza e sem brandura,

urdidos pela mão da Desventura,

pela baça tristeza envenenados.

.

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

no mundo esquecimento, a sepultura;

se os ditosos vos lerem sem ternura,

ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

.

Não vos inspire, ó versos, cobardia

da sátira mordaz o furor louco,

da maldizente voz a tirania.

.

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

que não pode cantar com melodia

um peito, de gemer cansado e rouco.

Bocage

Bocage

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Resgate
Novembro 6, 2013

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Há qualquer coisa aqui de que não gostam

da terra das pessoas ou talvez

deles próprios

cortam isto e aquilo e sobretudo

cortam em nós

culpados sem sabermos de quê

transformados em números estatísticas

défices de vida e de sonho

dívida pública dívida

de alma

há qualquer coisa em nós de que não gostam

talvez o riso esse

desperdício.

.

Trazem palavras de outra língua

e quando falam a boca não tem lábios

trazem sermões e regras e dias sem futuro

nós pecadores do sul nos confessamos

amamos a terra o vinho o sol o mar

amamos o amor e não pedimos desculpa.

.

Por isso podem cortar

punir

tirar a música às vogais

recrutar quem vos sirva

não podem cortar o verão

nem o azul que mora

aqui

não podem cortar quem somos.

Manuel Alegre