Dez réis de esperança
Janeiro 22, 2013

o-exito-da-vidaSe não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão

Poema sem esperança
Outubro 1, 2009

retrovisor

Toda a esperança que tive a dividi

por quantos a quiseram receber.

Deles espero agora que a devolvam

com novo rosto e acrescentando juro.

A esperança era fingida, toda feita

de conscientes manhas e de enganos,

tão bem arquitectada que passava

por sincera, vivida, verdadeira.

Era uma esperança imposta, necessária

para as voltas dos dias e das noites,

sem roupagens, sem véus, sem adereços

como na estatuária se apresenta.

Uma esperança sem esperança, alimentada

a soro e drogas no hospital das letras:

no escuro, ensimesmada como um feto;

na luz, extravasada como adulto.

Transferindo-me a outros me recolho

e me fico, de ouvidos apurados,

num solitário andar entre automóveis

nas poluídas ruas da cidade.

 

António Gedeão

 

Soneto do amor difícil
Agosto 6, 2009

pacific_ocean_by_barufubeefcake1A praia abandonada recomeça

logo que o mar se vai, a desejá-lo.

É como o nosso amor, somente embalo

enquanto não é mais que uma promessa.

Mas se na praia a onda se espedaça,

há logo nostalgia de uma flor

que ali devia estar para compor

a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos

no silêncio de morte que nos tolhe,

como entre o mar e a praia um longo molhe

de súbito largado à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu

desencanto na curva do teu céu.

 

David Mourão Ferreira