Há palavras que nos beijam
Agosto 26, 2017

Há palavras que nos beijam

como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

de imenso amor, de esperança louca.

.

Palavras nuas que beijas

quando a noite perde o rosto ;

palavras que se recusam

aos muros do teu desgosto.

.

De repente coloridas

entre palavras sem cor,

esperadas, inesperadas,

como a poesia e o amor.

.

( O nome de quem se ama

letra a letra revelado

no mármore distraído

no papel abandonado.)

.

Palavras que nos transportam

aonde a noite é mais forte,

ao silêncio dos amantes

abraçados contra a morte.

now

Alexandre O’Neill

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As minhas mãos
Dezembro 15, 2016

As minhas mãos procuram o teu rosto
e perdem-se no ar, desesperadas;
percorrem o caminho do desgosto
e caem a teus pés, extenuadas.
.
Os teus olhos ardentes, de sol-posto,
reacendem as brasas desmaiadas
que jazem no meu peito, encantadas,
à espera de um beijo, de um gosto.
.
Eu quero-te, amor, como tu queres
o calor dos meus lábios, se puderes
ajudar-me a vencer o desafio.
.
As minhas mãos procuram-te, esperam.
Em todos os castelos que fizeram,
tu vives como um sonho, e eu confio.
tempo 3

Diana Sá

Um animal com penas
Junho 10, 2016

O que é a esperança? Um animal com penas, pensei. Preferia ser capaz de a descrever

de um modo menos obtuso. Ser capaz de pôr um dia a eternidade a germinar lentamente,

isso sim, isso seria uma das formas de esperança reconhecível.

Alguém, com passos ágeis, procura dominar o desgosto que nos trouxe a esta sala.

Procura apaziguar a biologia, os fluxos e refluxos que a animam, a prometida destruição.

Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida. Tem por ofício prognósticos humildes,

uma cronologia de sábios gestos que o uso torna incertos e verdadeiros ou verdadeiros

e incertos (a ordem dos termos tornou-se arbitrária).

A esperança é uma hipótese que anotámos no caderno mais próximo,

esse que está em cima da mesa aguardando uma visita do acaso.

novembro2

Luís  Quintais     em      Arrancar penas a um canto de cisne

Tristeza
Setembro 26, 2011

Nos dias de tristeza, quando alguém
nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
às vezes, nem sequer nós respondemos:
faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
sabe-se lá donde a tristeza vem?!…
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
pergunte pelo mal de que sofremos…

Mas, quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!…
Ó mistério, que em toda parte existes…

Pois, haverá desgosto mais profundo
do que este de não se ter alguém no mundo
que nos pergunte por que estamos tristes?!

Virgínia Vitorino

Poema
Outubro 23, 2008

Há palavras que nos beijam

como se tivessem boca,

palavras de amor, de esperança,

de imenso amor, de esperança louca.

.

Palavras nuas que beijas

quando a noite perde o rosto,

palavras que se recusam

aos muros do teu desgosto.

De repente, coloridas,

entre palavras sem cor,

esperadas, inesperadas,

como a poesia ou o amor.

.

( O nome de quem se ama

letra a letra revelado

no mármore distraído,

no papel abandonado ).

.

Palavras que nos transportam

aonde a noite é mais forte,

ao silêncio dos amantes

abraçados contra a morte.

.

 Alexandre O´Neill