espelho
Fevereiro 16, 2018

espelho, és a terra onde as raízes rebentam de mistérios.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

os olhares sem fim das coisas paradas. repetes o meu olhar.

espelho, és a parede e a pele cansada, és um silêncio a morrer a noite,

és o que ninguém quer, a verdade mais triste e cansada por dentro.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

a desgraça, a miséria e o desespero.

espelho, quis conhecer-te e perdi-me de ti.

espelho

José Luís Peixoto

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Se a desgraça chegar
Janeiro 20, 2016

Um homem só é homem se persiste,
se luta, se contesta, se ultrapassa
a angústia agreste do minuto triste
que traz a solidão e a desgraça.
.
Eu que conheço tudo quanto existe
e por tudo passei (e a gente passa),
acredito naquele que conquiste
no sofrimento a força de uma raça.
.
A minha raça. Raça destroçada
mas corajosa, que tem tudo e nada,
o mar e a areia dos desertos.
.
Homem, aconteça o que aconteça,
se a desgraça chegar, ergue a cabeça
e vai em frente, de olhos bem abertos.

homem-tristeza

Sidónio Muralha

Port Wine
Março 28, 2014

V.Porto

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Joaquim Namorado

Novo Ano
Dezembro 31, 2013

Malta!

Ouçam a terra a girar!

Estremeçam, sente-se o ano a chegar!

Olhem, o nevoeiro denso

ávido e intenso, a vir do mar.

Preparem-se que a guerra é hoje.

Chegou ontem pela calada,

os castelos estão tomados,

os jardins amordaçados.

Acordem todos, alerta e bem

que o amanhã é uma traça

tão negra no futuro que nos colhe

que entre os dedos da desgraça

sem chegar nos ultrapassa.

Malta, todos na mesma? Arre!

Às armas, em pé, peito ao vento

que eu nem sei como aguento.

Mas nada foi diferente!

Povo dolente e tudo dormente!

Há tanto que começou

o tempo da incoerência

que eu ardo de impaciência.

Malta! Olhem o louco horizonte!

Pum! Ano Novo e agora?

Bom Ano? Há quem mereça?

Pum! Nevoeiro! Caiu a ponte!

De quem é esta cabeça?

Conceição Roque da Silveira