Neste curto espaço entre nós e a morte
Dezembro 27, 2016

Neste curto espaço entre nós e a morte

tão mal gastamos nossa longa despedida!

.

Tu, amor de quem não sei o nome

de onde não sei a sorte,

vais passar além deste poema que era teu

e assim de morte construída,

teus passos vão enchendo a minha vida.

.

Outro nome será flor sobre os teus lábios,

e outros dedos tocarão a límpida frescura

dos teus ombros quase d’ água

e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo…

.

E assim iremos de olhos futuros,

tu, envelhecendo na minha ausência,

eu, a erguer-te na curva da esperança,

.

e outra mão vai desmanchar a tua trança

e hei-de beijar teu rosto onde não eras

e serás só o que há antes das horas mais tristes

e será tarde até saber que não existes.

.

Neste curto espaço entre nós e a morte,

onde me vais perdendo,

onde te vou buscando.

nosso amor se vai embora alimentando

de despedida ;

não porque morra o tempo em teus braços,

mas a vida.

Dandelion --- Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Dandelion — Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Victor Matos e Sá

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Sonho
Fevereiro 9, 2014

Um cair de cabelos nos teus ombros,

um suspiro preso à lembrança que

ficou, um brilho que se demora nos

olhos à janela, um eco que não passa

.

na memória de um murmúrio, o

abraço em que o tempo se suspende,

a voz que dança por entre ruídos e

silêncio, as mãos que não se libertam

.

num gesto de despedida, lábios que

outros lábios procuram, uma luz

que alastra na sombra que desce,

.

e uma sombra que se ilumina quando

a noite já cresce: tu, sonho que

faz real a realidade em que te sonho.

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Nuno  Júdice

Verso sem despedida
Outubro 15, 2013

Haverás de bater em minha porta

quando a noite chegar serena, fria,

carregando a paixão pesada e morta,

relembrarás a minha companhia.

.

Distante da esperança que conforta,

perto do desengano que crucia,

verás que toda volta à rua é torta,

e a casa encontrarás sempre vazia.

.

Tu chorarás ao ver o meu desprezo

sem poder reduzir, sequer, o peso

da cruz que colocaste em minha vida.

.

E nessa hora de dor que mortifica,

a poetisa parte… o verso fica

sem ódio, sem rancor, sem despedida…

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Sarah Rodrigues

Crepúsculo
Julho 12, 2010

É quando um espelho, no quarto, se enfastia.

Quando a noite se destaca da cortina,

quando a carne tem o travo da saliva,

e a saliva sabe a carne dissolvida.

Quando a força de vontade ressuscita,

quando o pé sobre o sapato se equilibra,

e quando às sete da tarde morre o dia,

que dentro de nossas almas se ilumina

com luz lívida, a palavra despedida.

David  Mourão Ferreira

Despedida
Junho 19, 2010

Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos

quando anunciaste a despedida

e eu que habitara lugares secretos

e me embriagara com os teus  gestos

recolhi as palavras vagabundas

como a tempestade que engole os barcos

porque  ama os pescadores

Impossível separarmo-nos

agora que gravaste o teu sabor

sobre o súbito

e infinito parto do tempo

Por isso te toco

no grão e na erva

e na poeira da luz clara

a minha mão

reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira

exausto

e desfila entre mercados e ruas

eu escuto sempre a voz que é tua

e que dos lábios

se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam

os corpos dos amantes

o teu ventre aceitou a gota inicial

e um novo habitante

enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar

encostámos os nossos lábios

à funda circulação do sangue

porque me amavas

eu acreditava ser todos os homens

comandar o sentido das coisas

afogar poentes

despertar séculos à frente

e desenterrar o céu

para com ele cobrir

os teus seios de neve

Mia Couto

Esta manhã encontrei o teu nome
Maio 7, 2010

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos

e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo

doeu-me onde antes os teus dedos foram aves

de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha

camisola ; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração

que era o resto da vida – como um peixe respira

na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes : tudo o que vem de ti

 é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara

um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo

um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,

mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota

as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

Maria do Rosário Pedreira