Cada um cumpre o destino que lhe cumpre
Agosto 20, 2019

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.
E deseja o destino que deseja;
nem cumpre o que deseja,
nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
o Fado nos dispõe, e ali ficamos;
que a Sorte nos fez postos
onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

soledad_y_tristeza_by_magdalena220
29-7-1923

Ricardo Reis

A um carvalho
Junho 26, 2019

Forte como um destino,

calmo como um pastor,

a sarça ardente é quando o sol a pino

o inunda de seiva e de calor.

Barbas, rugas e veias de gigante,

mas, sobretudo, braços!

Largos e negros, de desmedidos traços,

gestos solenes de uma fé constante.

Árvore e banco

Miguel Torga

Antítese
Dezembro 17, 2018

Navego num largo mar de enganos,

guiado pela estrela cega do horizonte.

O meu destino está inscrito nestes anos

em que o tempo nasce de uma futura fonte.

.

Assim, o que foi ontem está para ser,

passado que vive num presente sem nós,

como o rio que, para correr, nasce na foz;

e tudo o que vi ainda está para se ver,

.

tal como o silêncio que fala nesta voz.

O caminho faz-se quando se está parado,

barco que anda sem haver vento;

.

e só quem está certo pode ser enganado

quando, ao pensar, perde o pensamento,

e em tudo o que sonha só vê o passado.

barco1-1

Nuno  Júdice

Da mais alta janela da minha casa
Julho 31, 2018

Da mais alta janela da minha casa
com um lenço branco digo adeus
aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
nem o rio esconder que corre,
nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
e eu sem querer sinto pena
como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro    em    “O Guardador de Rebanhos

Os dias de Verão
Julho 7, 2018

Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

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Sophia de Mello Breyner Andresen    em    Obra Poética

Chove sempre
Dezembro 12, 2017

Chove sempre quando partes…

Há sempre aviões

que passam por aonde tu vais

Voo para Bruxelas, porta nº 3,

diz a voz

em línguas diferentes,

sucessivamente,

a voz tornada europeia

nascida dos sítios

p’ra onde te levam

aviões de alumínio

.

Chove sempre…

E o motor do carro

que me traz de volta

replica na garganta

o motor tremendo

do teu avião

que arranha no chão

como unha em parede

sentida sem corpo,

na respiração,

no cerne incorpóreo

da vida que oscila e suspende,

que acende e apaga

nas luzes que cruzam

na tua figura

.

Na retina, a rodar

em círculo infernal

fica a mesma imagem

das outras partidas

noutros aviões;

de costas, a gabardine,

a pasta na mão,

o chapéu de chuva,

porque chove sempre…

.

Na minha cabeça

vazia, aquática

martela periódico

presente e real,

futuro e destino:

o limpa pára-brisas

porque chove sempre

quando partes sempre

chuva

Manuela Morgado

Balada dos Amigos Separados
Dezembro 5, 2017

Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangular-nos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?

amigos

Mário Dionísio   em    ‘As Solicitações e Emboscadas’

Dentro da noite
Fevereiro 19, 2017

Dentro da noite que me rodeia
negra como um poço de lado-a-lado
eu agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável.
Nas garras cruéis da circunstância
eu não tremo ou me desespero.
Sob os duros golpes da sorte
a minha cabeça sangra,
mas não se curva,
além deste lugar de raiva e choro
para somente o horror da sombra
e, ainda assim a ameaça do tempo
vai encontrar-me e achar-me, destemido.
Não importa se o portão é estreito,
não importa o tamanho do castigo.
Eu sou o dono do meu destino.
Eu sou o capitão da minha alma.

man_down_the_road_by_goldenso

William Ernest Henley (citado por Nelson Mandela enquanto estava preso).

Quando eu morrer
Julho 4, 2016

Quando eu morrer quero as tuas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais sobre mim sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.
.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que sintas o perfume do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.
.
Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teus cabelos,
para que assim conheçam a razão do meu canto.

Neruda
Pablo Neruda    em  Cem Sonetos de Amor

 

Vasco da Gama
Maio 3, 2016

Somos nós que fazemos o destino.
Chegar à Índia ou não
é um último desígnio da vontade.
Os fados a favor
e a desfavor
são argumentos da posteridade.
.
O próprio génio pode estar ausente
da façanha.
Basta que nos momentos de terror,
persistente,
o ânimo enfrente
a fúria de qualquer Adamastor.
.
O renome é o salário do triunfo.
O que é preciso, pois, é triunfar.
Nunca meia viagem consentida!
Nunca meia medida
do vinho que nos há-de embriagar!

tempestade

Manuel Alegre