Chove sempre
Dezembro 12, 2017

Chove sempre quando partes…

Há sempre aviões

que passam por aonde tu vais

Voo para Bruxelas, porta nº 3,

diz a voz

em línguas diferentes,

sucessivamente,

a voz tornada europeia

nascida dos sítios

p’ra onde te levam

aviões de alumínio

.

Chove sempre…

E o motor do carro

que me traz de volta

replica na garganta

o motor tremendo

do teu avião

que arranha no chão

como unha em parede

sentida sem corpo,

na respiração,

no cerne incorpóreo

da vida que oscila e suspende,

que acende e apaga

nas luzes que cruzam

na tua figura

.

Na retina, a rodar

em círculo infernal

fica a mesma imagem

das outras partidas

noutros aviões;

de costas, a gabardine,

a pasta na mão,

o chapéu de chuva,

porque chove sempre…

.

Na minha cabeça

vazia, aquática

martela periódico

presente e real,

futuro e destino:

o limpa pára-brisas

porque chove sempre

quando partes sempre

chuva

Manuela Morgado

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Balada dos Amigos Separados
Dezembro 5, 2017

Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangular-nos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?

amigos

Mário Dionísio   em    ‘As Solicitações e Emboscadas’

Dentro da noite
Fevereiro 19, 2017

Dentro da noite que me rodeia
negra como um poço de lado-a-lado
eu agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável.
Nas garras cruéis da circunstância
eu não tremo ou me desespero.
Sob os duros golpes da sorte
a minha cabeça sangra,
mas não se curva,
além deste lugar de raiva e choro
para somente o horror da sombra
e, ainda assim a ameaça do tempo
vai encontrar-me e achar-me, destemido.
Não importa se o portão é estreito,
não importa o tamanho do castigo.
Eu sou o dono do meu destino.
Eu sou o capitão da minha alma.

man_down_the_road_by_goldenso

William Ernest Henley (citado por Nelson Mandela enquanto estava preso).

Quando eu morrer
Julho 4, 2016

Quando eu morrer quero as tuas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais sobre mim sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.
.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que sintas o perfume do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.
.
Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teus cabelos,
para que assim conheçam a razão do meu canto.

Neruda
Pablo Neruda    em  Cem Sonetos de Amor

 

Vasco da Gama
Maio 3, 2016

Somos nós que fazemos o destino.
Chegar à Índia ou não
é um último desígnio da vontade.
Os fados a favor
e a desfavor
são argumentos da posteridade.
.
O próprio génio pode estar ausente
da façanha.
Basta que nos momentos de terror,
persistente,
o ânimo enfrente
a fúria de qualquer Adamastor.
.
O renome é o salário do triunfo.
O que é preciso, pois, é triunfar.
Nunca meia viagem consentida!
Nunca meia medida
do vinho que nos há-de embriagar!

tempestade

Manuel Alegre

Arte poética
Dezembro 20, 2015

Faço um poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes com o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
na água, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
regista, como o dedo segue
a linha da leitura,
como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas ás vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim.
Faço poema às vezes.
.
Faço poema sempre como vivo.

regato 2

Walmir Ayala

Vesperal
Setembro 7, 2015

E, contudo, é bonito
o entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
da ramagem
e fica esparramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
parece adormecida
nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
sem destino.
E o rumor citadino
ondula nos ouvidos
distraídos
dos que vão pelas ruas caminhando
devagar
e como que sonhando,
sem sonhar…

por do sol 3

Miguel Torga

Da Morte.Odes Mínimas
Agosto 26, 2015

V

Túrgida-mínima
como virás, morte minha?

Intricada. Nos nós.
Num passadiço de linhas.
Como virás

nos caracóis, na semente
em sépia, em rosa mordente
como te emoldurar?

Afilada
ferindo como as estacas
ou dulcíssima lambendo

como me tomarás?

Hilda Hilst

A fala
Janeiro 14, 2015

Sou de uma Europa de periferia

na minha língua há o estilo manuelino

cada verso é uma outra geografia

aqui vai-se a Camões e é um destino.

.

Velas veleiro vento. E o que se ouvia

era sempre na fala o mar e o signo.

Gramática de sal e maresia

na minha língua há um marulhar contínuo.

.

Há nela o som do sul o tom da viagem.

O azul. O fogo de Santelmo e a tromba

de água. E também sol. E também sombra.

.

Verás na minha língua a outra margem.

Os símbolos  os ritmos  os sinais.

E Europa que não mais Mestre não mais.

mar bravo

Manuel  Alegre

Port Wine
Março 28, 2014

V.Porto

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Joaquim Namorado