Poema a poema
Junho 19, 2017

Poema a poema escrevo poesia

dia após dia, após noite e sobressalto

cerro e sussurro e de novo tumulto

.

Poema a poema escrevo o desassossego

a translúcida lisura da asa, a harmonia

que deseja o verso no corpo da luz

 .

Poema a poema vou tocando, tomando

o corpo da escrita, afagando a linguagem

num lento e indizível prazer indeterminável

.

Sonho, após símbolo, após metáfora

após sintaxe

Palavra após palavra, após palavra

.

após palavra…

we-are-all-poets

Maria Teresa Horta

 

 

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Felicidades
Maio 25, 2017

não percas tempo
com os fragmentos
jamais refarás
o que se quebrou

tu já não és tu
nada é o que já foi
nada será o que
podia ter sido

há um começo tardio
para um final próximo
é essa a estória do depois

é tarde muito tarde
longe vão as manhãs
só te resta esperar
e reaprender os dias

felicidades
flores 4

A. H. Cravo

Poema sobre nada
Janeiro 26, 2017

Por vezes a Primavera é um pássaro que atravessa o Inverno,

não há o calor do sol

ou a brisa tépida que sopra por entre as folhas,

por vezes um olhar é o único aceno.

.

Há dias em que a única certeza da vida

é a tua leve presença

sobre o abismo da ignorância,

há dias em que nem a morte está garantida.

.

Um pássaro de luz corta as nuvens de sombra,

desde a claridade e as trevas

do princípio,

um pássaro de luz da tua íris irrompe.

.

Os teus braços não provarão que estou vivo,

são efémeros

mas deixei de parte a memória,

os teus braços nada provam e cinjo-os.

passaroverde

Joel Henriques

Tenho fome
Janeiro 19, 2017

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.
.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
.
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.

amores-impossiveis-3162451-1238

Pablo Neruda

vens
Janeiro 2, 2017

 

vens

caindo

pela dor

acomodando

 

nuas palavras

à ferida de ter

perdido, a face é

pequena para sentir

 

o que em nós sobrevive

no instante em que a voz

desce as sombras desse dia

 

onde voltar já não se escreve

com medo das marés. Podes agora

subir: é como estar (de novo)  na luz

triste

 

João Luís Barreto Guimarães

 

 

 

Forma
Agosto 9, 2016

Procurava um estilo – algo que se pusesse no

poema como um chapéu para a chuva ou para o

sol. Queria vestir a linguagem, a estrofe, o verso

com a insólita elegância do equilibrista. Lia

em voz alta os poemas dos outros como se fossem

seus; e, no entanto, não conseguia sair da

“aurea mediocritas”, do tom baixo que caracteriza

os simples imitadores, Uma noite, aproveitou

o isolamento da rua para se observar a si

próprio no reflexo de uma porta de vidro. “Quem

és?”, perguntou à sua imagem; e não se espantou

com o silêncio que lhe respondeu. Não era ele,

afinal, incapaz de explicar fosse o que fosse

da vida ? Construía ilusões e deixava que elas

se esfumassem sem se preocupar em fixar a

sua imagem – afinal, aquilo de que os poemas são

feitos. E o inverno passou, com o fogo das suas

águas; uma primavera trouxe-lhe o nome que há

muito se desabituara de chamar; julho e agosto

prostraram-no na hesitação das tardes. Para quê

escrever? Porém, as nuvens do outono desceram ao

nível dos telhados; os dias ficavam mais curtos;

o vento do norte chegava com uma dicção de

antigas folhas. Pensa que os mortos te visitam;

abre-lhes a página; e descobre que és um deles,

envolto num lençol de névoa e de retórica.

Moon and cloud.

Nuno Júdice

Se eu pudesse
Julho 22, 2016

Se eu pudesse trincar a terra toda
e sentir-lhe um paladar
seria mais feliz um momento
mas eu nem sempre quero ser feliz.

E preciso ser de vez em quando infeliz
para poder ser natural…
Nem tudo são dias de sol
e a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
naturalmente, como quem não estranha
que haja montanhas e planícies
e que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
na felicidade ou infelicidade.
Sentir como quem olha.
Pensar como quem anda.
E quando se vai morrer, lembrar-se que o dia morre,
e que o poente é belo e é bela a noite que fica.
Assim é e assim seja…

arame

Alberto Caeiro

Murmúrios
Junho 22, 2016

Perseguem-me dias sempre iguais,
Num cais da infância
Entre as paredes do meu quarto.
Quatro paredes de lágrimas

Por vezes búzios em valsa pela enseada
Dos murmúrios.

A noite persegue-me entretanto
Essências do rosmaninho enlaçados de alecrim,
Cantatas de pinheiros mansos e suas
Resinas frescas.

Perseguem-me as palavras que não sei dizer,
O fado que não sei cantar,
Persegue-me a morte que não sei morrer…

Minha sina é esta,
Ter esta condição!
Não saber o que é o abraço de um irmão,
Ter dançado com as feiticeiras na eira
E observado tarde demais que a Lua era similar
À roda da carroça
Que o meu avô guardava no telheiro.

Ter entendido o amor assim que o perdi
Quando nas minhas asas já quebradas eu deixava sucumbir todo o Infinito, todas as fogueiras, todas as ausências de um querubim
E parti de mim no murmúrio sereno das fontes.

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© Célia Moura, (inédito) 19.IV.2016

Colhe o dia porque és ele
Maio 22, 2016

Uns, com os olhos postos no passado,
veem o que não veem: outros, fitos
os mesmos olhos no futuro, veem
o que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto
a segurança nossa? Este é o dia,
esta é a hora, este o momento, isto
é quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
que nos confessa nulos. No mesmo hausto
em que vivemos, morreremos.
Colhe o dia, porque és ele.

natureza_rio

Ricardo Reis  (heterónimo de Fernando Pessoa)

Abdicação
Abril 1, 2016

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
e chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
o meu trono de sonhos e cansaços.
.
Minha espada, pesada a braços lassos,
em mãos viris e calmas entreguei;
e meu ceptro e coroa – eu os deixei
na antecâmara, feitos em pedaços.
.
Minha cota de malha, tão inútil,
minhas esporas de um tinir tão fútil,
deixei-os pela fria escadaria.
.
Despi a realeza, corpo e alma,
e regressei à noite antiga e calma
como a paisagem ao morrer do dia.

alone

Fernando Pessoa