Não te rendas
Agosto 31, 2020

Não te rendas, ainda estás a tempo

de alcançar e começar de novo,

aceitar as tuas sombras

enterrar os teus medos,

largar o lastro,

retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,

continuar a viagem,

perseguir os teus sonhos,

destravar os tempos,

arrumar os escombros,

e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,

ainda que o frio queime,

ainda que o medo morda,

ainda que o sol se esconda,

e se cale o vento:

ainda há fogo na tua alma

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,

porque o quiseste e eu te amo,

porque existe o vinho e o amor,

porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,

tirar os ferrolhos,

abandonar as muralhas que te protegeram,

viver a vida e aceitar o desafio,

recuperar o riso,

ensaiar um canto,

baixar a guarda e estender as mãos,

abrir as asas

e tentar de novo

celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:

mesmo que o frio queime,

mesmo que o medo morda,

mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

ainda há fogo na tua alma,

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque cada dia é um novo início,

porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque não estás só, porque eu te amo.

despertares

Mário Benedetti

Que tempo é este?
Maio 1, 2020

Dia após dia,

esta angústia cinzenta

de não saber o que virá…

.

Procuro no aparelho

o rasto dos amigos,

a razão da existência…

.

As notícias não acalmam,

embora não aturdam

como noutras paragens…

.

Que tempo é este,

escuro, traiçoeiro,

denso e impalpável?

.

As árvores esverdecem,

a Primavera chega,

mas o luto sobe em nós…

azul-e-verde

Diana Sá

 

Dia
Janeiro 1, 2020

Mergulho no dia como em mar ou seda

Dia passado comigo e com a casa

Perpassa pelo ar um gesto de asa

Apesar de tanta dor e tanta perda

mulher 3

Sophia de Mello Breyner Andresen

Motivo
Novembro 10, 2019

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

sou poeta.
.
.
Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.
.
.
Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.
.
.
Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.
.
gaivotas 3
.
Cecília Meireles

Dias há
Setembro 29, 2019

Dias há,

em que o teu sorriso

é uma ilha perdida dentro de mim

e o teu nome

o vento que muda as estrelas

para o dorso das andorinhas.

.

Dias há,

em que procuro os teus olhos

e silenciosamente te digo “meu amor”,

como se eles fossem peixes

e as palavras animais estranhos

capazes de turvar a paz

das grandes profundidades.

Risco

Isabel Meyrelles

Bié – o regresso falhado a casa
Março 2, 2019

A casa alberga o mapa da linguagem

o relógio antigo da avó

a ampulheta imemorial

que conta os grãos perdidos do tempo.

A casa aloja o próprio tempo

a raiz dos primeiros passos

aqueles que me casaram

com a respiração do mundo.

.

Hoje ao cair da tarde

no controlo militar de Silva Porto – Gare

eles não me deixaram passar

“Se você passas daqui, vais para a morte”-

disseram.

.

Fiquei a olhar o cano das espingardas

o rumor dos gatilhos na face

atravessei a minha infância em segundos

com os olhos húmidos.

Eu vi ao longe o meu passado

perdido na grande noite escura.

Depois daquele dia

nunca mais fui o mesmo

nunca mais pertenci

a mim próprio.

MINOLTA DIGITAL CAMERA

António Costa Silva

Nenhuma morte apagará
Fevereiro 18, 2019

Eu estava tão perto de ti que tenho frio ao pé dos outros.-  PAUL ÉLUARD

amor

Nenhuma morte apagará os beijos

e por dentro das casas onde nos amámos

ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre

estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,

esses densos sinais do amor e da morte

com que se vive a vida.

.

Aí estarão de novo as nossas mãos

e nenhuma dor será possível onde nos beijámos.

Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.

Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,

profundamente, no peito dos amantes,

a nossa alma líquida e atormentada

.

desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas

ardam violentos de paixão os nossos beijos

e os corpos se abracem mais e se confundam

mutuamente violando-se, violentando a noite

para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa

Diário V
Janeiro 24, 2019

o perfume

eleva a pele a algo entre

o veludo e o abraço.

cola-se na minha memória

a mistura de tangerinas,

rosas, lilases.

e traz com elas dias inteiros.

falando de amor ou não

Silvia Chueire

Os dias de Verão
Julho 7, 2018

Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

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Sophia de Mello Breyner Andresen    em    Obra Poética

Balada
Junho 18, 2018

Amei-te muito, e eu creio que me quiseste
também por um instante nesse dia
em que tão docemente me disseste
que amavas ‘ma mulher que o não sabia.

Amei-te muito, muito! Tão risonho
aquele dia foi, aquela tarde!…
E morreu como morre todo o sonho
deixando atrás de si só a saudade! …

E na taça do amor, a ambrosia
da quimera bebi aquele dia
a tragos bons, profundos, a cantar…

O meu sonho morreu… Que desgraçada!
E como o rei de Thule da balada
deitei também a minha taça ao mar …
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Florbela EspancaTrocando olhares – 08/08/1916