Quando está frio
Janeiro 7, 2014

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
porque para o meu ser adequado à existência das cousas
o natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
e encontra uma alegria no facto de aceitar —
no facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
da mesma inevitável exterioridade a mim,
que o calor da terra no alto do Verão
e o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
mas nunca ao erro de querer compreender demais,
nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
nunca ao defeito de exigir do Mundo
que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

dois_pinguins

Alberto Caeiro

Sonhe
Junho 5, 2011

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e

nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E  para aqueles que reconhecem a importância
das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta,
mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

Clarice Lispector

Soneto do amor difícil
Agosto 6, 2009

pacific_ocean_by_barufubeefcake1A praia abandonada recomeça

logo que o mar se vai, a desejá-lo.

É como o nosso amor, somente embalo

enquanto não é mais que uma promessa.

Mas se na praia a onda se espedaça,

há logo nostalgia de uma flor

que ali devia estar para compor

a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos

no silêncio de morte que nos tolhe,

como entre o mar e a praia um longo molhe

de súbito largado à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu

desencanto na curva do teu céu.

 

David Mourão Ferreira