Descrição
Setembro 8, 2020

A minha casa tem o tamanho do universo,

nela cresce o trigo sob o vento.

Se me encontro no meio da sala,

cabem outros continentes em poucos passos

e nunca me considero estrangeiro.

.

Moro na vastidão insuperável das galáxias,

na distância intransponível habito.

Se me descubro no seu interior,

com facilidade me aproximo do parapeito das janelas

e nunca estou sozinho.

.

Fiquei sempre por dentro da minha moradia,

desde a primeira aurora.

Se fecho a sua porta e não mais a transponho,

tenho um jardim cultivado no silêncio das palavras

e Deus nunca me abandona.

estrelas 2

Joel  Henriques

Paisagem
Agosto 9, 2017

Cega-me a distância azul sem par
o gesto bondoso da sombra sobre o banco
a presença de algum deus sobre a paisagem
o silêncio íntimo da lonjura
um poema em estado bruto
na curva da viagem.

Maria Isabel Fidalgo

Poema primeiro
Novembro 28, 2012


Gosto-te. E desta certeza
se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.

Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.

Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.

Gosto-te. Na-na-na, na-ô…
Na-na-na, na-ô… na-nô…
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas “longe”
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar as sílabas. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.
Mais discreto que isto
é impossível.

*

JOAQUIM PESSOA,  em  GUARDAR O FOGO

Hoje
Novembro 12, 2012

Hoje não sei do que sou capaz.

.

Às vezes não procuramos respostas.

Outras, não conseguimos vê-las.

.

De vez em quando a inteligência deixa-nos

como um cônjuge saturado, incapaz de nos suportar.

Mas temos obrigação de viajar

espreitando pelas janelas da água, pelo postigo da indulgência,

espalhar pela distância o embaraço

de modo a regressar felizes como crianças exibindo

troféus coloridos de algodão de açúcar.

.

Disputamos muitos jogos num estádio vazio

desperdiçando as mais flagrantes oportunidades,

porque aceitamos como normal o medo de vencer.

E no entanto todos os momentos são bons

para escutar o mar ou palmilhar desertos

com uma candeia ou com um sol por companheiros

que possam ajudar-nos a dissipar o conjunto das sombras

e, na dúvida, reconhecer a forma das coisas,

as que nos pertencem e as que nunca serão nossas

mas que queremos nossas por não nos pertencerem.

.

O que puderes tocar, tenta alcançá-lo.

O que não puderes saber, não ignores.

Constrói a casa em pleno mar.

Percorre a estrada em pleno voo.

Joaquim  Pessoa em   O Pouco é para Ontem

Im Ernstfall
Julho 31, 2012

Im Ernstfall

ist jeder allein mit sich

und dem verlassenen Kind.

Die Entfernungen

werden größer.

Nur selten einmal

reicht eine Brücke von

einem zum anderen Ufer.

Nur selten ist jemand da

im Ernstfall.

Anne Steinwart

.

Numa situação difícil

cada pessoa está só

como uma criança abandonada.

As distâncias

aumentam.

Só raramente

existe uma ponte

a unir as duas margens.

Só raramente está alguém lá

numa situação difícil.

Os olhos do poeta
Abril 19, 2012

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
… e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
– todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol
na noite de angústia que pesa no mundo.
.
MANUEL DA FONSECA,  em  POEMAS COMPLETOS

Vida 2
Julho 21, 2011

 Depois de algum tempo
aprendemos a diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

Aprendemos que
amar não significa apoiar-nos e que companhia nem sempre significa segurança.

Aprendemos que beijos não são
promessas.

E começamos a aceitar
as derrotas com a cabeça erguida.

Aprendemos a construir a nossa estrada no hoje,
porque o amanhã é incerto…

Depois de algum tempo aprendemos que o sol
queima se ficarmos expostos por muito tempo.

E aprendemos que não importa o quanto nós nos
importamos, algumas pessoas simplesmente não se importam…

E aprendemos que não importa o quão boa seja uma
pessoa, ela vai ferir-nos de vez em quando e precisamos perdoá-la por
isso.

Aprendemos que falar pode
aliviar as nossas dores emocionais.

Descobrimos que levamos anos para construir
confiança e apenas segundos para destruí-la, e que podemos fazer coisas num
instante, das quais nos podemos arrepender o resto da vida.

Aprendemos que as verdadeiras amizades continuam
a crescer mesmo a longas distâncias.

E O QUE IMPORTA NÃO É O QUE TEMOS NA VIDA, MAS
QUEM TEMOS NA VIDA.

E os amigos são a família que nos permitiram
escolher.
Percebemos que
as pessoas que mais amamos na vida são levadas de nós muito depressa, por isso
devemos deixá-las sempre com palavras de afecto, porque pode ser a última vez
que as vemos.

Descobrimos que levamos muito tempo para nos
tornarmos na pessoa que queremos ser, mas que o tempo é curto.

Aprendemos que não importa onde já chegámos, mas
para onde vamos, e se soubermos isso, qualquer lugar serve.

Aprendemos que, ou controlamos as nossas acções
ou elas acabam a controlar-nos.

E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, porque em
todas as situações existem sempre dois lados.

Aprendemos que paciência requer muita prática.

Descobrimos que algumas vezes as
pessoas de que menos esperamos são aquelas que nos estendem a mão e ajudam a
levantar quando caímos.

Descobrimos
que só porque alguém não nos ama da forma que nós gostaríamos, isso não
significa que esse alguém não nos ame com tudo o que pode.

Aprendemos que nem sempre é suficiente ser
perdoado por alguém, algumas vezes temos que perdoar-nos a nós próprios.

Aprendemos que
não importa em quantos pedaços o nosso coração foi partido, o mundo não pára
para que o possamos consertar.

Aprendemos que o tempo não é algo que possa
voltar para trás.

Aprendemos que
somos realmente fortes.

E que a
vida tem muito valor e que nós temos muito valor perante a
vida!

William  Shakespeare

Ponto brilhante
Junho 6, 2010

És um ponto brilhante

na noite dos meus dias.

Sou o mundo onde tu não estás,

o corpo que a teus olhos não brilha.

Sou um vazio no teu escuro,

uma presença morta.

Sou olhos postos em ti

e entre eles e tu, distância.

Diogo Silva

Eu sou tu
Março 21, 2010

Tu deste-me a alegria deste dia,

deste-me a brisa, o sonho e o amor…

Deste-me, enfim, a tua companhia

e afastaste de mim o tédio e a dor.

No meu silêncio, amor, ouço os teus passos

e aperto as tuas mãos em pensamento,

e o tempo pára, em beijos e abraços,

e o tempo pára, amor, neste momento.

E a distância real que outrora havia

desliza como areia entre os meus dedos.

Eu já não estou aqui, nem tu além.

E não sei se é noite ou será dia.

Fitando o teu olhar de mil segredos,

és tu, vivendo em mim, e mais ninguém!

Maria Aguiar Marçalo

Eu não existo sem você
Fevereiro 15, 2010

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim

que nada neste mundo levará você de mim.

Eu sei e você sabe que a distância não existe

que todo o grande amor

só é bem grande se for triste.

Por isso, meu amor,

não tenha medo de sofrer

que todos os caminhos

me encaminham para você.

Assim como o oceano

só é belo com luar,

assim como a canção

só tem razão se se cantar,

assim como uma nuvem

só acontece se chover,

assim como o poeta

só é grande se sofrer,

assim como viver

sem ter amor não é viver,

não há você sem mim,

e eu não existo sem você.

Vinicius de Moraes