Interrogação
Setembro 4, 2018

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
e apesar disso, crê! nunca pensei num lar
onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
a tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
que adoecia talvez de te saber doente.

© Matt Wisniewski

Camilo  Pessanha

 

Quando está frio
Janeiro 7, 2014

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
porque para o meu ser adequado à existência das cousas
o natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
e encontra uma alegria no facto de aceitar —
no facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
da mesma inevitável exterioridade a mim,
que o calor da terra no alto do Verão
e o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
mas nunca ao erro de querer compreender demais,
nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
nunca ao defeito de exigir do Mundo
que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

dois_pinguins

Alberto Caeiro