Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Setembro 28, 2018

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente

em minha perdição se conjuraram:

os erros e a Fortuna sobejaram,

que para mim bastava Amor somente.

.

Tudo passei, mas tenho tão presente

a grande dor das coisas que passaram,

que já as frequências suas me ensinaram

a desejos deixar de ser contente.

.

Errei todo o discurso dos meus anos,

dei causa a que a Fortuna castigasse

as minhas mal fundadas esperanças;

.

de Amor não vi senão breves enganos.

Oh quem tanto pudesse que fartasse

este meu duro Génio de vinganças!

rosto1

Bocage

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Interrogação
Setembro 4, 2018

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
e apesar disso, crê! nunca pensei num lar
onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
a tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
que adoecia talvez de te saber doente.

© Matt Wisniewski

Camilo  Pessanha

 

Da mais alta janela da minha casa
Julho 31, 2018

Da mais alta janela da minha casa
com um lenço branco digo adeus
aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
nem o rio esconder que corre,
nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
e eu sem querer sinto pena
como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro    em    “O Guardador de Rebanhos

Canção tão simples
Março 27, 2018

Quem poderá domar os cavalos do vento

quem poderá domar este tropel

do pensamento

à flor da pele?

.

Quem poderá calar a voz do sino triste

que diz por dentro do que se não diz

a fúria em riste

do meu país?

.

Quem poderá proibir estas letras de chuva

que gota a gota escorrem nas vidraças

pátria viúva

a dor que passa?

.

Quem poderá prender os dedos farpas

que dentro da canção fazem das brisas

as armas harpas

que são precisas?

chuva4

Manuel  Alegre

Morrer dentro de ti
Fevereiro 28, 2018

Morar dentro de ti como eu gostava
dormir sempre em teu peito bom seria
fazer da tua boca a minha casa
com varandas suspensas de alegria

Morar dentro de ti já me bastava
para esquecer o mundo num só dia

Fazer das tuas mãos essa passagem
que me leva num sonho sobre a água
Dos teus olhos de luz fazer a margem
onde possa ancorar a minha mágoa

Fazer das tuas mãos essa viagem
que mora além da dor, além da mágoa

Sós, na asa dum céu que nos abrace
Sós, na vida dos sonhos mais ardentes
Sem que ninguém amor nos alcançasse
onde os lábios se queimem inocentes

Quero morar amor dentro de ti
onde somente nós dois nos entendemos
para morrer amor dentro de ti
bem lá longe do mundo onde vivemos
mulher 1

Fernando Campos de Castro

Que já me magoaste me sossega
Abril 4, 2017

Que já me magoaste me sossega
e por mágoas e então, que ainda passo,
peso das minhas faltas me carrega,
nem os meus nervos são de bronze ou aço.

.
Pois se em minha rudeza te abalei,
e tu a mim, o que infernal te oprime,
com ser tirano, tempo não gastei
pesando o que sofri pelo teu crime.

.
Ah, nossa dor nocturna em mim lembrasse,
bem fundo, quanto dói funda tristeza
e, como a mim me deste, te prestasse

.
bálsamo humilde à dor no peito acesa.
Torne-se um preço a ofensa que em ti vinha;
resgate a minha a tua, a tua a minha.

olho-200

Shakespeare (tradução de Vasco Graça Moura)

vens
Janeiro 2, 2017

 

vens

caindo

pela dor

acomodando

 

nuas palavras

à ferida de ter

perdido, a face é

pequena para sentir

 

o que em nós sobrevive

no instante em que a voz

desce as sombras desse dia

 

onde voltar já não se escreve

com medo das marés. Podes agora

subir: é como estar (de novo)  na luz

triste

 

João Luís Barreto Guimarães

 

 

 

Entre o luar e a folhagem
Junho 28, 2016

Entre o luar e a folhagem,
entre o sossego e o arvoredo,
entre o ser noite e haver aragem
passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
princípio ou fim do que não foi,
não tem lugar, não tem verdade,
atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si!
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

sonho

Fernando Pessoa
19-8-1933

Quási
Maio 28, 2016

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse àquém…

 

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
num baixo mar enganador de espuma;
e o grande sonho despertado em bruma,
o grande sonho – ó dôr! – quási vivido…

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
quási o princípio e o fim – quási a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
asa que se elançou mas não voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indicios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
e mãos de herói, sem fé, acobardadas,
puseram grades sôbre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
das coisas que beijei mas não vivi…

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol – e fôra brasa,
um pouco mais de azul – e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza…
Se ao menos eu permanecesse àquem…

folhas de roseira

 

 

Mário de Sá-Carneiro     em     ‘Dispersão’

É preciso avisar toda a gente
Abril 26, 2016

É preciso avisar toda a gente,
dar notícia, informar, prevenir
que, por cada flor estrangulada,
há milhões de sementes a florir.
.
É preciso avisar toda a gente,
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada a detenha.
.
É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.
.
É preciso avisar toda a gente,
transmitindo esta morse de dores.
É preciso, imperioso e urgente
mais flores, mais flores, mais flores.

labaredas

João Apolinário