Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
Abril 14, 2020

Apontamento
Março 13, 2020

Vida – o único meio
de se revestir de folhagem,
recuperar o fôlego na areia,
levantar voo batendo as asas;
.
ser cão
ou afagar-lhe o pêlo quente;
.
distinguir a dor
de tudo o que não a é;
.
caber nos acontecimentos,
perder-se nas paisagens,
procurar o mais ínfimo dos enganos.
.
Ocasião excepcional
para, por um instante, recordar
o que se conversou
junto do candeeiro apagado;
.
pelo menos uma vez,
tropeçar na pedra,
molhar-se na chuva,
perder as chaves na relva;
.
seguir com o olhar uma faísca no vento
.
e sem parar algo de importante
não saber.

Wislawa Szymborska

Dia
Janeiro 1, 2020

Mergulho no dia como em mar ou seda

Dia passado comigo e com a casa

Perpassa pelo ar um gesto de asa

Apesar de tanta dor e tanta perda

mulher 3

Sophia de Mello Breyner Andresen

Soneto a Katherine Mansfield
Junho 1, 2019

O teu perfume, amada – em tuas cartas

renasce, azul… – são tuas mãos sentidas!

Relembro-as brancas, leves, fenecidas,

pendendo ao longo de corolas fartas.

.

Relembro-as, vou… – nas terras percorridas

torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto

paro; e tão perto sinto-te, tão perto

como se numa foram duas vidas.

.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera

tanto rever-te, tanto!… e a primavera

vem já tão próxima!… (Nunca te apartas

.

Primavera, dos sonhos e das preces!)

e no perfume preso em tuas cartas

à primavera surges e esvaneces.

primavera.jpg

Vinicius de Moraes

A Foice e a Pena
Abril 29, 2019

Com outra que não pena arma trabalhas.
Se é minha a pena é tua a foice. Mas
se acaso são diferentes nossas armas
as penas são as mesmas e as batalhas.

Eu ceifo com a pena ervas daninhas
e a mentira que a todos envenena.
E tu ceifando penas essa pena
que fraterna se junta às penas minhas.

Onde tu ceifas eu ceifeiro sou
da tua dor ceifeira e dessas queixas
que dizes a ceifar e nunca ceifas.

Se já teu canto a foice te ceifou
canta ceifeira canta: a dor destrói-se
juntando a foice à pena e a pena à foice.

right

 Manuel Alegre

Caderno 1
Março 31, 2019

Quando me perco de novo neste antigo

caderno de capa preta de oleado –

que um dia rasguei com fúria e que um amigo

folha a folha recolou com vagar e paciência –

.

tudo me dói ainda como faca e me corta

pois diante de mim estão como sussurro e floresta

as longas tardes as misturadas noites

onde divago e divagam incessantemente

os venenosos perfumes mortais da juventude

.

E dói-me a luz como um jardim perdido

neve

Sophia de Mello Breyner Andresen

Femme
Março 8, 2019

 

 

 

 

 

 

 

Femme, j’ai tant de choses à te dire,
Qu’il me faudrait un livre pour l’écrire.
Une vie ne suffit pas, et encore plus de temps,
Car tu portes en toi tout ce que je ressens.
Femme tendresse, femme douceur,
Femme tempête, femme douleur,
Il me faudrait tout le dictionnaire
Pour parler de toi, en rimes et en vers.
.
Tu es le commencement et la fin.
Tu es l’aboutissement, soir et matin.
Tu es l’émotion, la finesse, la vie.
Tu es tout ce que je ne suis pas, je t’envie.
Tu es l’avenir de l’humanité,
Car tu portes en toi l’éternité.
.
Femme d’amour, tu donnes la vie.
Femme de cœur, tu donnes l’amour.
Femme sensible, fragile, forte,
J’attends tout de toi, ouvres-moi ta porte.
Fais-moi une place dans ton cœur.
Offre-moi tout de toi et plus encore.
Femme battue, maltraitée,
.
Femme outragée, mal aimée,
J’aimerais tant te protéger,
Pour pouvoir tout te donner.
Femme courage, tu es admirable.
Femme aimable, tu es remarquable.
.
Tu es, parfois, imprévisible, charmante,
Tellement troublante, émouvante.
Femme au regard si doux, si profond,
Je me plonge dans tes yeux jusqu’au fond,
Recherchant l’insondable, l’innommable.
S’il t’arrive de pleurer, je me sens minable.
Femme, ces colères que je redoute
Lorsque tes yeux lancent des éclairs,
.
J’apprécie pourtant, lorsque tu doutes,
Ton émotion, quoi qu’il t’en coute.
Femme, du fond de ma solitude,
J’ai besoin de ta sollicitude,
.
De ta douceur, de tes caresses,
De ton affection et de ta tendresse.
Femme heureuse, complice de mes bonheurs,
Femme amoureuse, tu supportes mes humeurs.
Et lorsque surviennent orage et malheur,
Tu gémis, tu souffres… pire tu pleures.
.
Femme tu me désarmes,
Alors je rends les armes.
Sans toi je l’avoue, je ne suis rien.
Tu le sais, de toi j’ai tant besoin.
Dis-moi encore qui es-tu ?


( auteur inconnu , texte qui traîne sur le net )

Fadette Aiache

 

 

 

Nenhuma morte apagará
Fevereiro 18, 2019

Eu estava tão perto de ti que tenho frio ao pé dos outros.-  PAUL ÉLUARD

amor

Nenhuma morte apagará os beijos

e por dentro das casas onde nos amámos

ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre

estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,

esses densos sinais do amor e da morte

com que se vive a vida.

.

Aí estarão de novo as nossas mãos

e nenhuma dor será possível onde nos beijámos.

Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.

Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,

profundamente, no peito dos amantes,

a nossa alma líquida e atormentada

.

desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas

ardam violentos de paixão os nossos beijos

e os corpos se abracem mais e se confundam

mutuamente violando-se, violentando a noite

para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa

Escavação
Janeiro 31, 2019

Numa ânsia de ser alguma cousa,

divago por mim mesmo a procurar,

desço-me todo, em vão, sem nada achar,

e minh’alma perdida não repousa!

.

Nada tendo, decido-me a criar.

Brando a espada, sou luz harmoniosa

e chama genial que tudo ousa

unicamente à força de sonhar…

.

Mas a vitória fulva esvai-se logo…

                                                            E cinzas, cinzas só, em vez de fogo…

– Onde existo que não existo em mim?

.

Um cemitério falso sem ossadas,

noites de amor sem bocas esmagadas –

tudo outro espasmo que princípio ou fim…

bando

Mário de Sá Carneiro

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Setembro 28, 2018

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente

em minha perdição se conjuraram:

os erros e a Fortuna sobejaram,

que para mim bastava Amor somente.

.

Tudo passei, mas tenho tão presente

a grande dor das coisas que passaram,

que já as frequências suas me ensinaram

a desejos deixar de ser contente.

.

Errei todo o discurso dos meus anos,

dei causa a que a Fortuna castigasse

as minhas mal fundadas esperanças;

.

de Amor não vi senão breves enganos.

Oh quem tanto pudesse que fartasse

este meu duro Génio de vinganças!

rosto1

Bocage