Eco
Agosto 2, 2017

Hoje, perguntando onde estás, e o

que fazes, ouço as palavras tristes

da solidão que me responde, sem

nada me dizer, ao dizer-me tudo.

.

O que fazes e onde estás, pergunto

ao silêncio que me deixaste, e ouço

em mim a resposta, num eco que

vem de ti, perguntando por mim.

.

E neste espelho que entre mim e ti

a ausência constrói, outro espelho

reflecte o vazio da sua imagem, até

.

esse infinito em que a minha pergunta

te responde, para que me devolvas

o eco em que as nossas vozes se juntam.

neblina

Nuno  Júdice

Palavras
Outubro 12, 2014

Diz-me,

diz-me que me ouves,

que aí, no silêncio dos astros que não

têm nome,

as minhas palavras chegam como um

cântico,

como um eco de outras idades,

diz-me sem medo

que me vês mais perto dos candelabros,

nos salões de incenso aonde regressei

para ver-te,

para dizer-te como isto dói,

como os anjos me abandonam sempre

que chega o outono.

lonely-742719

José  Agostinho  Baptista

O teu olhar sustenta o céu imenso
Dezembro 11, 2013

Andas pela casa com passos leves,

pousas a mão no colo, sorris. E eu

acredito que o mundo te acompanha.

Como ecos do que fazes, formam-se

nuvens sobre o mar e cantam pássaros

em países distantes. Sei que é assim.

O teu olhar sustenta o céu imenso,

a luz dos astros, todas as galáxias.

mulherrosa

José  Mário  Silva

Panorama
Junho 4, 2013

Pátria vista da fraga onde nasci.

Que infinito silêncio circular!

De cada ponto cardeal assoma

a mesma expressão muda.

É de agora ou de sempre esta paisagem

sem palavras,

sem gritos,

sem o eco sequer de uma praga incontida?

Ah! Portugal calado!

Ah! Povo amordaçado

por não sei que mordaça consentida!

paisagem com árvore

Miguel Torga

Eu luminoso não sou
Junho 3, 2012


Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
um poço mais remoto, e habitado
… de cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
secreto e intratável das águas interiores,
uma roda de céu ondulando se alarga,
digamos que é o mar: como o rápido canto
ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
o movimento de asas. O musgo é um silêncio,
e as cobras-d’água dobram rugas no céu,
enquanto, devagar, as aves se recolhem.

JOSÉ SARAMAGO, em PROVAVELMENTE ALEGRIA

Ecos
Outubro 19, 2011

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral

Saudades
Outubro 8, 2008

Tu foges de um céu despedaçado,

que nunca o foi ou poderia ser.

Eu busco um novo dia começado,

uma imagem para te esquecer.

.

Os monstros e as mágoas do passado

não permitem um outro amanhecer,

que a fria solidão, ao nosso lado,

uma vez mais , fizesse irromper.

.

Saudades… Que são elas, se a vida

nos mostrou, corajosa, decidida,

que não nascemos para viver a dois?

.

Importa desbravar outro horizonte,

abrir caminhos, construir a ponte,

ouvir os ecos e vibrar depois…

Diana Sá

A casa do tempo perdido
Agosto 9, 2008

Bati no portão da casa do tempo perdido, ninguém atendeu.

Bati segunda vez e mais outra.

Resposta nenhuma.

A casa do tempo perdido está coberta de hera

pela metade; a outra metade são cinzas.

Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando

pela dor de chamar e não ser escutado.

Simplesmente bater. O eco devolve

minha ânsia de enteabrir esses paços gelados.

A noite e o dia se confundem no esperar,

no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.

É  o casarão vazio e condenado.

ruínas

 Carlos Drummond de Andrade