Epitáfio
Agosto 20, 2013

De mim não buscareis, que em vão vivi

de outro mais alto que em mim próprio havia.

Se em meus lugares, porém, me procurardes

o nada que encontrardes

eu sou e minha vida.

.

Essas palavras que em meu nome passam

nem minhas nem de altura são verdade.

Verdade foi que de alto as desejei

e que de mim só maldições cobriam.

Debaixo delas a traição se esconde,

porque demais me conheci distante

de alturas que de perto não existem.

.

Fui livre, como as águas, que não sobem.

Pensei ser livre, como as pedras caem.

O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,

que o dia-a-dia

em que me via

ele mesmo apenas era e nada mais.

.

Por isso fui amado em lágrimas e prantos

do muito amor que ao nada  se dedica.

jorge-de-sena

Nada que fui, de mim não fica nada.

E quanto não mereço é o que me fica.

Se em meus lugares, portanto, me buscardes

o nada que encontrardes

eu sou e a minha vida.

Jorge de Sena

Vazio
Março 12, 2011

Estou triste, hoje… Eu sei

que a vida é assim, que há dias

enclausurados  nas profundezas

do vazio…

O Absoluto abre-se, infinito.

Sem objectivos, sem estratégias.

Deixa-se acontecer…

Estamos debilitados demais

para opor o que quer que seja

ao passar ininterrupto das horas.

Que interessa

tentar mudar o percurso do tempo?

 

Diana  Sá

Pensar em ti
Junho 10, 2010

 

Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória – é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti

E se me lembro mal, se troco às vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas

Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus

Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem

O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes

e lembrar-se
exactamente,
de uma forma correcta

é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais

Ana Luisa Amaral

Gosto de ti…
Abril 16, 2010

Ando às voltas. De ti.

Desbravo atalhos, perco-me em ruelas

e esbarro nas esquinas.

És um roteiro emaranhado.

Inebriante.

Viciante.

Seguro o fôlego e fixo os olhos nos rostos

e nas vozes que me cercam.

E as caras que eu vejo são a tua

e as vozes que ecoam são a tua.

E se o corpo me pesa,

e se as pálpebras me cansam,

é porque procuro com sofreguidão o teu corpo

em lençóis povoados por estranhos,

e nunca, nunca te alcanço…

Luís Pires

Gota de água
Abril 11, 2010

Eu, quando choro, não choro eu.

Chora aquilo que nos homens

em todo o tempo sofreu.

As lágrimas são as minhas,

mas o choro não é meu.

António Gedeão

Mas galopas
Setembro 16, 2009

A galope,

um cavaleiro atravessava a noite.

Inútil perguntar-lhe

o que levava. Galopava.

À desfilada,

atravessava noites, abismos, cidades.

Não lhe perguntásseis de onde veio,

aonde ia. Galopava.

chama

Furacão

vingador, arcanjo desencadeado,

que resta do que foste? Já não és fogo,

nem vento. És cinza, pó. Mas galopas.

 

Papiniano Carlos


Compreender
Junho 19, 2009

É triste não compreender.

Mais triste ainda é não obter uma explicação.

Vida, por que és tão complicada?

Quando escondes as tuas cartas,

imagino histórias e histórias de angústia,

entrego-me ao correr da intuição

transformada em pesadelo…

angústia

Não sei o que se passa.

E tu não queres que eu saiba.

Queres que eu continue a mendigar respostas…

 

Diana Sá

Natureza
Junho 10, 2009

A formosura desta fresca serra

e a sombra dos verdes castanheiros,

o manso caminhar destes ribeiros,

donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,

o esconder do Sol pelos outeiros,

o recolher dos gados derradeiros,

das nuvens pelo ar a branda guerra ;

Enfim, tudo o que a rara Natureza

com tanta variedade nos oferece

me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enoja e aborrece,

sem ti, perpetuamente estou passando

nas mores alegrias mor tristeza.

camoes-a-cores3

Luís de Camões

Das Unennbare
Junho 3, 2009

Ó  quimera, que passas embalada

na onda dos meus sonhos dolorosos,

e  roças, c´os vestidos vaporosos,

a minha fronte pálida e cansada !

Leva-te o ar da noite sossegada…

Pergunto em vão, com olhos ansiosos,

que nome é que te dão os venturosos

no teu país, ó misteriosa fada !

Mas que destino o meu! e que luz baça

a desta aurora, igual à do sol-posto,

quando só nuvem lívida esvoaça !

Que nem a noite uma ilusão consinta !

que só de longe e em sonhos te pressinta…

E  nem em sonhos possa ver-te o rosto !

noite 2

Antero de Quental

Palavras 2
Março 18, 2009

pessoa4webxlNão sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

…….

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê  é  só o que vê,

quem sente não é quem é.

…….

Atento ao que sou e vejo,

torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

é do que nasce  e  não meu.

…….

Sou minha própria paisagem,

assisto à minha passagem,

diverso, subtil  e  só,

não sei sentir-me onde estou.

…….

Por isso alheio, vou lendo

como páginas o meu ser.

O que segue não prevendo,

o que passou a esquecer.

…….

Noto à margem do que li

o que julguei que senti.

Releio e digo : “Fui eu?”

Deus sabe,porque o escreveu.

…….

 Fernando Pessoa