Amador sem coisa amada
Março 9, 2009

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Resolvi andar na rua

com os olhos postos no chão.

Quem me quiser que me chame

ou que me toque com a mão.

.

Quando a angústia embaciar

de tédio os olhos vidrados,

olharei para os prédios altos,

para as telhas dos telhados.

.

Amador sem coisa amada,

aprendiz colegial,

sou amador da existência,

não chego a profissional.

 António Gedeão

Soneto à maneira de Camões
Fevereiro 5, 2009

Esperança e desespero de alimento

me servem neste dia em que te espero

e  já não sei se quero ou se não quero,

tão longe de razões é o meu tormento.

………..

Mas como usar amor de entendimento?

Daquilo que te peço desespero

ainda que mo dês – pois o que eu quero

ninguém o dá senão por um momento.

…………

Mas como és belo, amor, de não durares,

de ser tão breve  e  fundo o teu engano,

e  de eu te possuir sem tu te dares.

…………

Amor perfeito dado a um ser humano :

também morre o florir de mil pomares

e  se quebram as ondas do oceano.

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 Sophia de Mello Breyner Andresen

Eis-me
Janeiro 13, 2009

Eis-me

tendo-me despido de todos os meus mantos

tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

para ficar sozinha ante o silêncio

ante o silêncio e o esplendor da tua face

…………

Mas tu és de todos os ausentes o ausente

nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

e o meu coração desce as escadas do tempo em que não moras

e o teu encontro

são planícies e planícies de silêncio

…………

Escura é a noite

escura e transparente

mas o teu rosto está para além do tempo opaco

e eu não habito os jardins do teu silêncio

porque tu és de todos os ausentes o ausente

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 Sophia de Mello Breyner Andersen

Eu preferia
Janeiro 8, 2009

Sei que a ternura

não é coisa que se peça,

e  dar-se não significa

que alguém a queira ou mereça.

Estas verdades,

que são do senso comum,

não me dão conformação

nem sentimento nenhum

de haver força e dignidade

na minha sabedoria…

Eu preferia

– sinceramente, preferia ! –

que, contra as leis recolhidas

no que ficou dos destroços

de  outras vidas,

tu me desses a ternura que te peço;

ou que,

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por fim, reparasses

que a mereço.

Reinaldo Ferreira

Vai-te, Poesia
Janeiro 3, 2009

Deixa-me ver a vida

exacta e intolerável

neste planeta feito de carne humana a chorar

onde um anjo me arrasta todas as noites

para casa pelos cabelos

com bandeiras de lume nos olhos,

para fabricar sonhos

carregados de dinamite de lágrimas.

.

Vai-te, Poesia .

Não quero cantar.

Quero gritar!

.

José Gomes Ferreira

No ponto onde o silêncio
Dezembro 19, 2008

No ponto onde o silêncio e a solidãohow_to_heal_a_broken_heart_by_lexidh

se cruzam com a noite e com o frio,

esperei como quem espera em vão,

tão nítido e preciso era o vazio.

………………..

 S0phia de Mello Breyner Andresen

 

XII
Julho 22, 2008

Trinta raios convergem para o meio

mas é o vazio do centro

que faz avançar o carro.

.

Molda-se a argila para fazer vasos,

mas é do vazio interno

que depende o seu uso.

.

Uma casa é fendida por portas e janelas,

é ainda o vazio

que a torna habitável.

.

O Ser dá possibilidades

mas é pelo não ser que as utilizamos.

now

 Tao Te King

Incógnita
Julho 18, 2008

O que queremos não sei, nem talvez tu

mesmo consigas discerni-lo bem…

… o encontro adiado… entre quem ?

Não sei o que pensar, nem talvez tu …

.

Não posso mais falar como se um

nós fôssemos, pois não o somos já …

… memória esparsas, cá e lá …

… pedaços de um sonho, ou de nenhum…

.

Não sei quem és, quem sou, que procuramos,

que caminho insólito pisamos,

que objectivo queremos atingir …

.

A vida é uma incógnita assumida,

sem direcção, sem leme, sem medida,

deixada ao sabor do existir …

nevoeiro

 Diana Sá

Desencontro
Junho 2, 2008

Só quem procura sabe como há dias

de imensa paz deserta; pelas ruas

a luz perpassa dividida em duas :

a luz que pousa nas paredes frias,

.

outra que oscila desenhando estrias

nos corpos ascendentes como luas

suspensas, vagas, deslizantes, nuas,

alheias, recortadas e sombrias.

.

E  nada coexiste. Nenhum gesto

a um gesto corresponde ; olhar nenhum

perfura a placidez, como de incesto,

.

de procurar em vão ; em vão desponta

a solidão sem fim, sem nome algum –

– que mesmo o que se encontra não se encontra.

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 Jorge de Sena