É verdade
Fevereiro 24, 2020

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É verdade «que um baixo amor os fortes enfraquece»
mas também o grande amor torna ridículos os grandes,
pois o amor é, em energia material sobre o mundo, um roubo— apesar de, em sensações, ser magnífico. 0 amor será útil internamente,
mas externamente não carrega um tijolo.
Disso nunca tive dúvidas.

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A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões.
Nos países humanos, o amor mistura-se muito
com palavras equívocas.
0 fogo que existe numa lareira, por exemplo,
é um fogo servil, cultural, educado.
Uma coisa vermelha, mas mansa,
que nos obedece.
Só é natureza, o fogo na lareira,
quando, vingando-se, provoca um incêndio.
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário.

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É desarranjo de estratégias e planos,
surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltante que não prejudica
os vizinhos.
Mas atenção, de novo: o amor não faz bem aos países,
não desenvolve as suas indústrias, nem a economia.
Disso nunca tive dúvidas. E por isso é preferível não.

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No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor
entre? Não é mercadoria traficada em caixas,
que as caixas são objectos que se abrem ao meio
— e é possível, com uma lanterna, olhar lá para dentro.

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0 amor não se vê como
se fosse uma presença.
É demasiado completo
para ter uma forma. E como jamais
se conseguiram obter juros de uma coisa
que não ocupa espaço, é preferível não,
parece-me.

Gonçalo M. Tavares     em    “Uma Viagem à Índia”

percurso(s)
Agosto 10, 2019

faço parte de um percurso

entre o corpo quente de minha mãe e a terra fria de meu pai

não sei em que ponto da viagem estou

ou sequer se a viagem é curta ou ainda longa

tenho pó nos sapatos, mas as solas não estão gastas

já tenho rugas no rosto e marcas no corpo e no coração

mas ainda terei mais e mais

já caí e já me levantei várias vezes

e continuarei a cair,

esperando levantar-me,

ao menos um dia

Estou em viagem, em trânsito

e estar assim cansa, desilude, apeia

mas também impele, resiste e…

.

é a eterna obrigação da existência

entre dois pontos

ou muitos mais

entre pólos de energias variáveis

que afundam e emergem

que submergem e salvam

.

anda daí e junta o teu alforge ao meu

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André Lamas Leite

Foi um reencontro acolhedor
Outubro 16, 2018

Na tua energia transbordante,
mas serena,
na delicadeza com que me envolves,

de repente,
tudo me parece possível.

Contagias-me com a tua força.
Fazes-me olhar mais longe…
muito para lá do que se vê.

Tudo fica mais belo,
mais alegre.

Mostras-me um sorriso aberto.
Nos teus olhos de um azul profundo
sou um peixe pequenino

e nesse azul imenso
eu deixo-me ir…
feliz.

João  Alberto  Roque