Podia ter sido
Julho 1, 2017

Podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois.

olho-200

Pedro Sena-Lino

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A Europa
Fevereiro 9, 2015

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno

e disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?

É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.

Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.

Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,

nem sequer contra o insólito, contra o desespero.

Tu disparas contra a luz.

Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.

Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.

Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.

Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.

Há tantos meses que não chove – reparaste?

A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.

Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.

Quem deve. Quem empresta. Quem paga.

Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.

Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.

Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.

Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,

nós não queremos disparar.

europa

Filipa Leal

(“A Europa” é um poema integrado no poema em cadeia “Renshi.eu – um diálogo europeu em versos” do Festival de Poesia de Berlim. É um poema em cadeia escrito por 28 poetas de 28 países europeus, que abordam de forma literária as questões do presente e futuro da Europa. Cada poeta começa a escrever a partir do último verso do poema anterior, dando origem a uma obra gigantesca que espelha uma miríade de olhares e referências culturais. Este poema foi lido pela autora em português, na sessão de apresentação da obra conjunta, na Akademie der Kuenste de Berlim.)

Doce contentamento já passado
Outubro 24, 2014

Doce contentamento já passado,

em que todo o meu bem só consistia,

quem vos levou de minha companhia,

e me deixou de vós tão apartado?

.

Quem cuidou que se visse neste estado

naquelas breves horas de alegria,

quando minha ventura consentia

que de enganos vivesse meu cuidado?

.

Fortuna minha foi cruel e dura

aquela que causou meu perdimento,

com a qual ninguém pode ter cautela.

.

Nem se engane nenhuma criatura;

que não pode nenhum impedimento

fugir o que lhe ordena sua estrela.

long_road_to_ruin_by_mario192

Luís de Camões

Destino 2
Setembro 11, 2011

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Mia Couto, em  “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

Esperança
Junho 22, 2011

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade.

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.

Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?
Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

Almada Negreiros

Poema sem esperança
Outubro 1, 2009

retrovisor

Toda a esperança que tive a dividi

por quantos a quiseram receber.

Deles espero agora que a devolvam

com novo rosto e acrescentando juro.

A esperança era fingida, toda feita

de conscientes manhas e de enganos,

tão bem arquitectada que passava

por sincera, vivida, verdadeira.

Era uma esperança imposta, necessária

para as voltas dos dias e das noites,

sem roupagens, sem véus, sem adereços

como na estatuária se apresenta.

Uma esperança sem esperança, alimentada

a soro e drogas no hospital das letras:

no escuro, ensimesmada como um feto;

na luz, extravasada como adulto.

Transferindo-me a outros me recolho

e me fico, de ouvidos apurados,

num solitário andar entre automóveis

nas poluídas ruas da cidade.

 

António Gedeão

 

Caminhando
Março 30, 2009

observado

Caminho… E  vendo o tempo que ficou

atrás de mim, tão cheio de incerteza,

em meu espírito encontro mais firmeza

– menos pena da vida que passou !

…….

Caminho… E  o cepticismo que brotou

da minha alma, vencida de tristeza,

não deixará mudar em fé acesa

a  dúvida que a vida originou.

…….

Caminho… E  tento ver se no porvir

para o passado encontro o esquecimento

pois neste meu desejo hei-de sentir

…….

renascer dentro de mim um novo alento!

Caminho… E  os meus lábios, a sorrir,

enganam o meu próprio pensamento.

 

Gabriela Castelo-Branco

Como é possível?
Fevereiro 13, 2009

chuvaComo é possível um engano

alicerçado em incógnitas

pouco a pouco iluminadas?

……

Como é possível alguém

esconder-se atrás de um verso,

de uma letra, de um número,

para depois renegar-se?

……

Como é possível abusar assim

dos  sentimentos do outro?

Como é possível confiar?

 

 Diana Sá