As coisas que errei na vida
Fevereiro 12, 2019

As coisas que errei na vida
são as que acharei na morte,
porque a vida é dividida
entre quem sou e a sorte.

As coisas que a Sorte deu
levou-as ela consigo,
mas as coisas que sou eu
guardei-as todas comigo.

E por isso os erros meus,
sendo a má sorte que tive,
terei que os buscar nos céus
quando a morte tire os véus
à inconsciência em que estive.

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 Fernando Pessoa     em    “Novas Poesias Inéditas”

 

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Setembro 28, 2018

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente

em minha perdição se conjuraram:

os erros e a Fortuna sobejaram,

que para mim bastava Amor somente.

.

Tudo passei, mas tenho tão presente

a grande dor das coisas que passaram,

que já as frequências suas me ensinaram

a desejos deixar de ser contente.

.

Errei todo o discurso dos meus anos,

dei causa a que a Fortuna castigasse

as minhas mal fundadas esperanças;

.

de Amor não vi senão breves enganos.

Oh quem tanto pudesse que fartasse

este meu duro Génio de vinganças!

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Bocage

Quando está frio
Janeiro 7, 2014

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
porque para o meu ser adequado à existência das cousas
o natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
e encontra uma alegria no facto de aceitar —
no facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
da mesma inevitável exterioridade a mim,
que o calor da terra no alto do Verão
e o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
mas nunca ao erro de querer compreender demais,
nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
nunca ao defeito de exigir do Mundo
que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

dois_pinguins

Alberto Caeiro

Pensar em ti
Junho 10, 2010

 

Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória – é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti

E se me lembro mal, se troco às vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas

Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus

Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem

O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes

e lembrar-se
exactamente,
de uma forma correcta

é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais

Ana Luisa Amaral

Soneto do Amigo
Novembro 30, 2009

Enfim, depois de tanto erro passado,

tantas retaliações, tanto perigo,

eis que ressurge noutro o velho amigo

nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado,

com os olhos que contêm o olhar antigo,

sempre comigo um pouco atribulado

e como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano,

sabendo se mover e comover

e a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo : um ser que a vida não explica,

que só se vai ao ver outro nascer

e o espelho da minha alma multiplica.

Vinicius de Moraes