Morte, não sejas abismo
Outubro 31, 2018

Morte, não sejas abismo.
Nem esta escuridão aos gritos
que vem do silêncio da noite
num sussurro de treva
onde até as plantas falam
a repelirem-nos do mundo.
.
Morte, não sejas abismo,
mas outro silêncio apenas
que nos aproxime de tudo
– e onde bata um Coração
desesperado de ternura
porque ninguém o escuta.

coracao

José Gomes Ferreira

Dorme, meu amor
Setembro 22, 2018

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais

este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou

há muito tempo: e o vento amaciou: e a minha mão

desvia os passos do medo. Dorme, meu amor –

.

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste

e pode levantar-se como um pássaro assim que

adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra

não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes

e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

.

agora e sossega a porta está trancada: e os fantasmas

da casa que o jardim devorou andam perdidos

nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

.

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e

nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já

olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui

de guarda aos pesadelos a noite é um poema

que conheço de cor e vou cantar-to até adormecer

dreaming_myself_away_by_bellatina

Mª  Rosário  Pedreira

Príncipe
Dezembro 9, 2016

Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e uma
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

 

mulher-pensativa

Ana Hatherly      em    “Um Calculador de Improbabilidades”

 

Dantes
Julho 28, 2014

Quando ia passear contigo ao campo,
tu ias sempre a rir e a cantar;
e lembra-me até uma cotovia
que um dia se calou pra te escutar,

enquanto eu apanhava os malmequeres
que nos cumprimentavam da estrada,
que, depois esfolhavas, impiedoso,
na eterna pergunta: muito ou nada?

Tu beijavas as f´ridas carminadas
que, em meus dedos, faziam os espinhos
das rosas que coravam, vergonhosas,
zangadas, de nos ver assim sozinhos.

Fitávamos as nuvens do espaço.
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!
E ficávamos horas a pensar
se seriam castelos ou montanhas…

Que adoráveis canções de mimo e graça
os teus lábios proferiram a cantar!
tão mimosas, que as relvas da campina
ficavam pensativas a sonhar…

As fontes murmuravam docemente,
os teus beijos cantavam namorados;
cintilavam as pedras do caminho,
sorriam as flores pelos valados…

À hora sonhadora do poente
tinham maiores palpitações os ninhos.
Lembras-te? Íamos lavar as mãos,
vermelhas das amoras dos caminhos.

Eu brincava a correr atrás de ti;
uma sombra perseguindo um clarão…
E no seio da noite, os nossos passos
pareciam encher de sol a ’scuridão!

Olhando tanta estrela, tu dizias:
olha a chuva de prata que nos cobre!
Depois, numa expressão amarga e branda
recitavas, chorando, António Nobre!…

Eu tinha medo, um medo atroz infindo
de passar pelos campos a tal hora,
mas, olhando os teus olhos cintilantes,
a noite semelhava uma aurora!

E já passaram esses áureos tempos,
e já fugiu a nossa mocidade!…
Mas quando penso nesses dias lindos,
que tortura, minh’alma, e que saudade!

Em “Trocando olhares” 1915-1917
Florbela Espanca

DANTES</p><br />
<p>Quando ia passear contigo ao campo,<br /><br />
Tu ias sempre a rir e a cantar;<br /><br />
E lembra-me até uma cotovia<br /><br />
Que um dia se calou pra te escutar,</p><br />
<p>Enquanto eu apanhava os malmequeres<br /><br />
Que nos cumprimentavam da estrada,<br /><br />
Que, depois esfolhavas, impiedoso,<br /><br />
Na eterna pergunta: muito ou nada?</p><br />
<p>Tu beijavas as f´ridas carminadas<br /><br />
Que, em meus dedos, faziam os espinhos<br /><br />
Das rosas que coravam, vergonhosas,<br /><br />
Zangadas, de nos ver assim sozinhos.</p><br />
<p>Fitávamos as nuvens do espaço.<br /><br />
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!<br /><br />
E ficávamos horas a pensar<br /><br />
Se seriam castelos ou montanhas...</p><br />
<p>Que adoráveis canções de mimo e graça<br /><br />
Os teus lábios proferiram a cantar!<br /><br />
Tão mimosas, que as relvas da campina<br /><br />
Ficavam pensativas a sonhar...</p><br />
<p>As fontes murmuravam docemente,<br /><br />
Os teus beijos cantavam namorados;<br /><br />
Cintilavam as pedras do caminho,<br /><br />
Sorriam as flores pelos valados...</p><br />
<p>À hora sonhadora do poente<br /><br />
Tinham maiores palpitações os ninhos.<br /><br />
Lembras-te? Íamos lavar as mãos,<br /><br />
Vermelhas das amoras dos caminhos.</p><br />
<p>Eu brincava a correr atrás de ti;<br /><br />
Uma sombra perseguindo um clarão...<br /><br />
E no seio da noite, os nossos passos<br /><br />
Pareciam encher de sol a ’scuridão!</p><br />
<p>Olhando tanta estrela, tu dizias:<br /><br />
Olha a chuva de prata que nos cobre!<br /><br />
Depois, numa expressão amarga e branda<br /><br />
Recitavas, chorando, António Nobre!...</p><br />
<p>Eu tinha medo, um medo atroz infindo<br /><br />
De passar pelos campos a tal hora,<br /><br />
Mas, olhando os teus olhos cintilantes,<br /><br />
A noite semelhava uma aurora!</p><br />
<p>E já passaram esses áureos tempos,<br /><br />
E já fugiu a nossa mocidade!...<br /><br />
Mas quando penso nesses dias lindos,<br /><br />
Que tortura, minh’alma, e que saudade!</p><br />
<p>In “Trocando olhares” 1915-1917<br /><br />
Editora Martin Claret</p><br />
<p>Florbela Espancaflorbelaespanca.thumbnail

Tentei fugir
Julho 29, 2011

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David  Mourão – Ferreira

isto vai
Julho 25, 2011

por noites de insónia e de alcatrão

por laranjais e lábios ressequidos

pelo desespero na voz e escuridão

isto vai caro amigo (…)

pelo cabo axial que liga a nossa esperança

pela luz dos cabelos pelo sal

pela palavra remo pela palavra ódio

isto vai caro amigo (…)

pelos carris do medo pelas árvores

pela inocência e fome pelos perigos

pelos sinais fraternos pelas lágrimas

isto vai caro amigo

pela dureza do espaço

e em jardins falsíssimos

isto vai caro amigo

João Rui de Sousa   Ça ira