Deito na terra
Novembro 6, 2018

Deito na terra os grãos de sonho

peço-te que os fragmentes

como uma bomba dentro do meu peito.

Assim, sei que te poderei esquecer…

como uma imagem difusa na mente cansada,

ou um aroma indecifrável

adormecido nas mãos enrugadas

de uma espera dorida e milenar.

.

Estou envolvida por esse silêncio dormente

que abre as portas à madrugada

e me encosta dentro dessa cama

cujo saco amarfanho

com os dedos quebrados de tentativas falhadas,

no desespero da insónia.

.

Abraço o vazio com a força do frio

percorre-me o avesso do ser,

lambo as gotas que fervilham na pele despida

e os grãos são sementes por fecundar…

O teu corpo é estéril.

Já não me estremece nem abre os segredos da noite

onde fomos gemido e respiração ofegante.

.

Fechei a concha.

Voei para sul com sonhos na bagagem.

nesse mundo com outros mundos onde só eu pertenço

e onde nós já não temos espaço.

conchas.JPG

Carla Marques

barcarola
Maio 10, 2018

quero falar aqui do meu amor, quero falar

quando o silêncio é de oiro ensimesmado,

o tempo é de ferrugem,

e o espaço é de água na longa solidão

riscada pelas aves.

.

pobre relento dos sonhos que sonhámos:

passámos por aqui, os olhos rasos de luz

e o coração embalado por um fio de música

a diluir-se no crepúsculo

com as águas morosas, a

.

sombra a carregar-se ao rés das casas, as

rosas semicerrando-se numa leve respiração.

águas do douro que corriam, para onde

levavam as lembranças como barcos

que se esquecessem do seu rumo?

.

leve brisa do mar que nos chegava,

salina sem sabermos

que anunciava as lágrimas, de que fundo

dos mares atormentados arrancava?

cais humilde das cargas, quem diria

.

que ali só atracavam desventuras?

ali, só quero falar desta golfada a desprender-se

de sonho e oiro a que te misturavas

num ledo encantamento entre rumores

que se apagavam fulvos em surdina

.

e sílabas, sílabas que na alma a pouco e pouco

emudeciam comovidas, noite, ó noite

que cobriste essas horas do teu luto,

quando será manhã para que seja

outra tarde outra vez essa harmonia?

vem

Vasco Graça Moura

Talvez de noite
Novembro 27, 2016

À minha volta tudo envelheceu

como se fosse eu, e no entanto

uma casa, ou um espaço em branco

entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada

surge com a sua própria forma.

Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais,

a lembranças extenuadas,

às trevas do corpo, lúcidas,

latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo ‘palavras’ porque

não sei que coisa chamar

à mudez do mundo.

E digo  ‘sentido’ sufocado

sob o pensamento

tentando respirar

a golpes de coração,

agora que se desmorona a casa

sobre todas as palavras possíveis.

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Manuel António Pina

A forma justa
Outubro 21, 2016

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
a saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
se nada adoecer a própria forma é justa
e no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
de uma cidade humana que fosse
fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
e este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

par na floresta

Sophia de Mello Breyner Andresen,   em  O Nome das Coisas”

Namorados no mirante
Setembro 14, 2016

Eles eram mais antigos que o silêncio
a perscrutar-se intimamente os sonhos
tal como duas súbitas estátuas
em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens – a realidade
neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
como um hictus, houvesse adormecido.
Dele apenas restava o eterno grito
da espécie – tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
como duas estrelas que gravitam
juntas para, depois, num grande abraço
rolarem pelo espaço e se perderem
transformadas no magma incandescente
que milênios mais tarde explode em amor
e da matéria reproduz o tempo

nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio…

Vinicius de Moraes in “P’ra viver um grande amor”
Rio de Janeiro, 1960

Toda a minh’alma
Dezembro 26, 2015

Toda a minh’Alma se prende
naquella forma de graça;
mas não é na forma viva
mas sim na Linha que passa.
.
Toda a minh’Alma se prende,
bate as asas, esvoaça…
E é como a sombra distante
d’aquella Linha que passa.
.
A vida é só o Espaço
que vai da própria Linha
à sombra d’ella num traço.
.
Quando a Morte for vizinha,
fundidas no mesmo Espaço
será tudo a mesma Linha.

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Violante de Cysneiros (1915)

Falaram-me
Novembro 26, 2015

Falaram-me os homens em humanidade,
mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

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Alberto Caeiro

Eu queria
Janeiro 5, 2015

Eu queria mais altas as estrelas,
mais largo o espaço, o Sol mais criador,
mais refulgente a Lua, o mar maior,
mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas.
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
– Quanto mais funda e lúgubre a descida,
mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa… em paz, contente,
um dia adormecer, serenamente,
como dorme no berço uma criança!

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Florbela Espanca

Quando o amor morrer dentro de ti
Abril 18, 2014

Quando o amor morrer dentro de ti,
caminha para o alto onde haja espaço,
e com o silêncio outrora pressentido
molda em duas colunas os teus braços.

.
Relembra a confusão dos pensamentos,
e neles ateia o fogo adormecido
que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
espalhou generoso aos quatro ventos.

.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
e o nocturno calor que se debruça
sobre as faces brilhantes de soluços.

.
E se ninguém vier, ergue o sudário
que mil saudosas lágrimas velaram;
desfralda na tua alma o inventário
do templo onde a vida ora de bruços
a Deus e aos sonhos que gelaram.

só

Ruy Cinatti,   em  “Obra Poética”

isto vai
Julho 25, 2011

por noites de insónia e de alcatrão

por laranjais e lábios ressequidos

pelo desespero na voz e escuridão

isto vai caro amigo (…)

pelo cabo axial que liga a nossa esperança

pela luz dos cabelos pelo sal

pela palavra remo pela palavra ódio

isto vai caro amigo (…)

pelos carris do medo pelas árvores

pela inocência e fome pelos perigos

pelos sinais fraternos pelas lágrimas

isto vai caro amigo

pela dureza do espaço

e em jardins falsíssimos

isto vai caro amigo

João Rui de Sousa   Ça ira