O Espelho
Abril 7, 2019

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu. 

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

espelho 2

 Mia Couto

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Não diga o meu espelho
Maio 4, 2018

Não diga o meu espelho que envelheço,
se a juventude e tu têm igual data,
mas se os sulcos do tempo em ti conheço
então devo expiar no que me mata.

.
Tanta beleza te recobre e deu
tais galas a vestir a meu coração,
que vive no teu peito e o teu no meu.
Mais velho do que tu serei então?

.
Portanto, meu amor, cuida de ti
como eu, não por mim, por ti somente
te cuido o coração, que guardo aqui

.
como à criança a ama diligente.
Não contes com o teu se o meu morrer.
Deste-me o teu e o não vou devolver.

William Shakespeare    em    “Sonetos (22)”

espelho
Fevereiro 16, 2018

espelho, és a terra onde as raízes rebentam de mistérios.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

os olhares sem fim das coisas paradas. repetes o meu olhar.

espelho, és a parede e a pele cansada, és um silêncio a morrer a noite,

és o que ninguém quer, a verdade mais triste e cansada por dentro.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

a desgraça, a miséria e o desespero.

espelho, quis conhecer-te e perdi-me de ti.

espelho

José Luís Peixoto

Eco
Agosto 2, 2017

Hoje, perguntando onde estás, e o

que fazes, ouço as palavras tristes

da solidão que me responde, sem

nada me dizer, ao dizer-me tudo.

.

O que fazes e onde estás, pergunto

ao silêncio que me deixaste, e ouço

em mim a resposta, num eco que

vem de ti, perguntando por mim.

.

E neste espelho que entre mim e ti

a ausência constrói, outro espelho

reflecte o vazio da sua imagem, até

.

esse infinito em que a minha pergunta

te responde, para que me devolvas

o eco em que as nossas vozes se juntam.

neblina

Nuno  Júdice

Espelho
Fevereiro 26, 2017

 

Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É de um rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

DSC00761

Eugénio de Andrade

Ausência
Outubro 6, 2014

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.

mar bravo

Jorge Luis Borges, “Fervor de Buenos Aires” (1923) (tradução de Fernando Pinto do Amaral)

Espelho
Julho 22, 2014

Às vezes, queria ter apenas uma palavra

para te ver, tão leve como a flor, ou

tão doce como o amor; queria saboreá-la,

como se fosse um torrão – ou dizê-la

.

como fácil suspiro, sem dor nem tristeza.

De outras vezes, queria envolvê-la numa

espuma de frases, escondê-la sob a névoa

do verso, ou atirá-la ao vento que a

.

confundisse com a mais branca nuvem.

Mas essa palavra só existe porque diz

o que és, quando a digo; e se a não

.

digo, também o silêncio se transforma

em palavra, para que o espelho do poema

se abra, e nele o teu rosto me sorria.

Momentos de cor

Nuno  Júdice

A Palavra não tem Olhos
Agosto 6, 2013

A Palavra não tem olhos mas pálpebras de neblina

às vezes transparente. Por isso ela caminha lentamente

como uma sombra em corredores de sombra

e treme como se fosse cair ou perder o seu hálito

.

Ela quer ler a sua própria chama

que às vezes não é mais do que um archote de cal

Nunca sabe o dia da semana porque o seu calendário é o vento

e arde sob a chuva da sombra como uma lâmpada trémula

.

Mas o seu rosto não se vê em nenhum espelho

e embate na porta atrás da qual se ouvem ecos

que não são de ninguém ou já foram e talvez sejam de retratos

e procura levantar a parede que falta sempre num dos seus lados

fosforo-autor-desconhecido

António Ramos Rosa

Retrato
Maio 15, 2011

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

Tempo em que se morre
Agosto 5, 2010

Agora é verão, eu sei.

Tempo de facas, tempo

em que perdem os anéis

as cobras à míngua de água.

Tempo em que se morre

de tanto olhar os barcos.

É no verão, repito.

Estás sentada no terraço

e para ti correm todos os meus rios.

Entraste pelos espelhos :

mal respiras.

Vê-se bem que já não sabes respirar,

que terás de aprender com as abelhas.

Sobre os gerânios

te debruças lentamente.

Com rumor de água

sonâmbula ou de arbusto decepado

dás-me de beber

um tempo assim ardente.

Pousas as mãos sobre o meu rosto,

e vais partir

sem nada me dizer,

pois só quiseste despertar em mim

a vocação do fogo ou do orvalho.

E devagar, sem te voltares,

pelos espelhos entras na noite.

Eugénio de Andrade