A verdadeira liberdade
Novembro 15, 2016

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
a liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
a grande liberdade cristã da minha infância que rezava
estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
a noção jurídica da alma dos outros como humana,
a alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
e beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da mão do amigo [sério?]…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
da casa do campo da minha velha infância…
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?”

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Álvaro de Campos   em   “Poemas (Inéditos)

Luz
Outubro 13, 2015

Eu sinto-te a ferver dentro de mim,

Poesia.

Tu és a voz

resignada, triste, insatisfeita,

sei lá,

de um desejo de plenitude,

de uma espera desesperada,

de um grito no deserto.

.

A luz que procuro foge-me.

Só me deixa ver

as suas cintilações efémeras,

só me deixa imaginar

a sua claridade,

e foge…

.

Até quando?

Até quando esta ausência

premeditada e perversa?

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Diana  Sá

XV
Maio 4, 2015

 

Estamos todos cansados de esperar
o que nunca virá,
de subir às ameias e espreitar,
de nos deitarmos no chão para escutar
a voz que ainda não esteve nem estará
junto de nós para nos consolar.

À volta só o silêncio e a solidão
respondem ao nosso olhar que não descansa
e ao nosso sequioso coração
a quem disseram que tivesse esperança.

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Maria Judite de Carvalho
a flor que havia na água parada”, pág. 33

A demora
Maio 16, 2012


O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

MIA COUTO,  em  IDADES CIDADES DIVINDADES

Amor combate
Abril 25, 2012

Meu amor que eu não sei.

Amor que eu canto. Amor que eu digo.

Teus braços são a flor do aloendro.

Meu amor por quem parto.

Por quem fico. Por quem vivo.

Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor – país.

Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue.

É seiva. É sol. É Primavera.

Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.

O nosso amor é uma arma. É uma espera.

O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.

Rasgando o céu azul-coragem de  Lisboa.

Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.

O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas

para escrever com sangue o nome que inventei.

Romper. Ganhar a voz duma assentada.

Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor.

Amor de tudo ou nada.

Amor-verdade. Amor-cidade.

Amor-combate. Amor-abril.

Este amor de  liberdade.

Joaquim  Pessoa

Espero
Fevereiro 1, 2011

 

Espero sempre por ti o dia inteiro,
quando na praia sobe, de cinza e oiro,
o nevoeiro
e há em todas as coisas o agoiro
de uma fantástica vinda.

Sophia

 

Uma homenagem a uma grande poetisa, quando o seu espólio foi doado aos Portugueses.

Que direi eu…
Outubro 28, 2010

Que direi eu de ti, de mim, de nós,

o imenso inacabado que nos perde…?

Que te espero nos dias que se afundam

em noites inquietas, solitárias…

 

Eu sei que o infinito imaginado

nada é mais do que isso, horas mortas,

suspensas no mistério dos minutos,

perdidas no horizonte insondável…

 

Sou um imenso campo aberto ao sol,

à neve, às intempéries do presente.

Tu ficas no recôndito sombrio,

escondes-te na letra de um poema…

Diana Sá

À tua espera
Agosto 10, 2010

O meu mundo tem estado à tua espera ; mas

não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,

nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei

 

que um poema se escreveria entre nós dois ; mas

não comprei o vinho, não mudei os lençóis,

não perfumei o decote do vestido.

 

Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome

(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido)

se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –

 

estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro

com a violência de um incêndio ; mas parto

antes de saber como seria. Não me perguntes

porque se mata o sol na lâmina dos dias

e o meu mundo continua à tua espera :

houve sempre coisas de esguelha nas paisagens

e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes.

 

Maria do Rosário Pedreira

Gosto de ti…
Abril 16, 2010

Ando às voltas. De ti.

Desbravo atalhos, perco-me em ruelas

e esbarro nas esquinas.

És um roteiro emaranhado.

Inebriante.

Viciante.

Seguro o fôlego e fixo os olhos nos rostos

e nas vozes que me cercam.

E as caras que eu vejo são a tua

e as vozes que ecoam são a tua.

E se o corpo me pesa,

e se as pálpebras me cansam,

é porque procuro com sofreguidão o teu corpo

em lençóis povoados por estranhos,

e nunca, nunca te alcanço…

Luís Pires

Ano Novo
Janeiro 3, 2010

Por que será?

O ano principia com uma incógnita. Como já o anterior e outros o fizeram…

E eu ignoro a resposta. Continuo a ignorar, porque me é impossível encontrá-la sózinha, e quem me poderia ajudar se recusa…

Se tu soubesses

como custa

precisar de dados para resolver um problema

e ficar à espera,

eternamente à espera,

infinitamente à espera,

virias ao meu encontro

e dar-mos-ias,

porque pior do que conhecer qualquer resposta

é  morrer à sede  delas…