Mar adentro
Junho 16, 2019

Deixarei vento trazer areia molhada

moldando dunas sobre a praia peito

lençóis marinhos de bruma salgada

cobrindo-me vagas em húmido leito

.

Deixarei o sol aquecer a azul manta

brilho líquido sobre ninho aquático

cobertas de espuma brancura tanta

onda em fúria doce marear estático

.

Deixarei o céu fazer-se em mim mar

vaga mais rebelde possa acontecer

todos os sentidos me deixe libertar

em onda gigante na praia eu morrer

.

Vento chuva como lágrimas maresia

na morna loucura desta praia deserta

possam murmúrios mar ser sinfonia

.

A praia sentida num olhar imensidão

Vaga uma a uma murmura secreta

Mar adentro em mim húmida solidão

asruasdopensamento

Ana Bárbara de Santo António

 

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Os meus passos
Novembro 15, 2017

Os meus passos de criança não deixavam pegadas,

a tua mão de areia e de espuma

atraía-me para o teu seio

e eu partia, numa braçada confiante

em direcção ao azul dos gritos das gaivotas,

esse azul reluzente ao nível dos olhos

que me chamam sempre mais longe

em busca da vaga que seria enfim minha.

Hoje olho-te, mar,

e lembro-me das lágrimas vertidas,

do sal amargo do regresso,

da tua cor cambiante

que me traz o esquecimento

e eu permaneço lá, apaziguada e feliz,

a olhar a maré do presente

que já não é para mim o chamamento

da tua mortal imensidão.

mar bravo

Isabel  Meyrelles

momentos de mar
Agosto 15, 2016

 

a espuma adormece na areia
o cansaço de tanto andado

uma gaivota deixa o bando
primeiro passo para a liberdade

ao longe um barco acena
promessas de viagens a fazer

no céu uma nuvem brinca com o sol
e eu perco-me de tanto infinito

A.H. Cravo

gaivotas 3

Uma após uma
Junho 23, 2015

Uma após uma as ondas apressadas
enrolam o seu verde movimento
e chiam a alva ‘spuma
no moreno das praias.
.

Uma após uma as nuvens vagarosas
rasgam o seu redondo movimento
e o sol aquece o ‘spaço
do ar entre as nuvens ‘scassas.

.

Indiferente a mim e eu a ela,
a natureza deste dia calmo
furta pouco ao meu senso
de se esvair o tempo.

.

Só uma vaga pena inconsequente
pára um momento à porta da minha alma
e após fitar-me um pouco
passa, a sorrir de nada.

praia 2

Ricardo Reis   em   “Odes”

Ânsia
Janeiro 20, 2015

 

Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma.

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo.

espuma

Mia Couto  

 

em   “Raiz de orvalho e outros poemas”

Espelho
Julho 22, 2014

Às vezes, queria ter apenas uma palavra

para te ver, tão leve como a flor, ou

tão doce como o amor; queria saboreá-la,

como se fosse um torrão – ou dizê-la

.

como fácil suspiro, sem dor nem tristeza.

De outras vezes, queria envolvê-la numa

espuma de frases, escondê-la sob a névoa

do verso, ou atirá-la ao vento que a

.

confundisse com a mais branca nuvem.

Mas essa palavra só existe porque diz

o que és, quando a digo; e se a não

.

digo, também o silêncio se transforma

em palavra, para que o espelho do poema

se abra, e nele o teu rosto me sorria.

Momentos de cor

Nuno  Júdice

A Festa do Silêncio
Outubro 1, 2013

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

espuma
António  Ramos  Rosa

Frente a frente
Janeiro 20, 2012

Nada podeis contra o amor,
contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis.
E é tão pouco.

Eugénio de Andrade

Queria de ti um país
Setembro 8, 2011

Naufrágio
Agosto 15, 2011

Perdido no meio de uma tempestade
…que me rasgou as velas
me arrefeceu e me fez naufragar,
mergulhei no teu corpo revolto e ondulado,
acossado por piratas, adamastores
e outras gentes,
nadei por esse teu mar inconformado,
enfrentando as minhas nuvens de receios,
e as tuas promessas de ventos e correntes,
sedento, engoli a espuma que te enfeitava,
respirei o teu cheiro de maresia,
provei o teu sal de poesia,
que me aqueceu e me fez respirar,
mas veio depois uma onda
cobarde, repetida e traiçoeira
que me afogou, me fez desaparecer
e afundar nas palavras de um poema,
com um fim que apenas os dois
saberemos contar.

José Gabriel Duarte