Lembra-te
Maio 18, 2019

 

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

flor amarela

Mário Cesariny de Vasconcelos    em   “Pena Capital

Estrada
Fevereiro 10, 2018

A tua história entristece-me…

À luz do que sei hoje,

a sombra de uma censura escurece

o longo rol de problemas

que vivemos há uma eternidade.

Desconheci-a muito tempo.

Não entendia o teu rancor.

Depois, que fazer da estrada rota

que vai de mim a ti?

.

Como posso mostrar-te o que me aflige

se as minhas tentativas acabam

numa parede de aço

erguida entre nós?

Navego às cegas entre ondas vigorosas

e vagas de calmaria.

Não consigo avaliar se

e quanto precisas de mim.

Ajudas-me?

nevoeiro

Diana Sá

Deixem passar
Março 10, 2016

 

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
beber água de Sonho a qualquer fonte;
ou colher açucenas
a um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
e onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
uma estrela no chão.

(1932) Miguel Torga

Foto de Páginas Em Poesia.

O Portugal futuro
Novembro 20, 2015

O portugal futuro é um país

aonde o puro pássaro é possível

e sobre o leito negro do asfalto da estrada

as profundas crianças desenharão a giz

esse peixe da infância que vem na enxurrada

e me parece que se chama sável

Mas desenhem elas o que desenharem

é essa a forma do meu país

e chamem elas o que lhe chamarem

portugal será e lá serei feliz

Poderá ser pequeno como este

ter a oeste o mar e a espanha a leste

tudo nele será novo desde os ramos à raiz

À sombra dos plátanos as crianças dançarão

e na avenida que houver à beira-mar

pode o tempo mudar será verão

Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz

mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o portugal futuro

portugal

Ruy Belo

Ah, no silêncio do quarto
Junho 18, 2013

Ah, no terrível silêncio do quarto
o relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.

criança

ÁLVARO DE CAMPOS (FERNANDO PESSOA), em LIVRO DE VERSOS
(16-8-1929)

Não tens perdão
Janeiro 12, 2012

Não me disseste amante, madrugada,
pedra-de-lua, pássaro, viagem.
No meu corpo de Agosto feito à estrada,
não descobriste a sombra da folhagem.
Não murmuraste ao menos solidão.
Amora, mel, morango, não disseste.
Não te pedi nem mar nem coração.
Não tens perdão.
Fui água e não bebeste.

 Rosa Lobato de Faria

Para além da curva da estrada
Dezembro 26, 2011

Para além da curva da estrada

talvez haja um poço, e talvez um castelo,

talvez seja apenas a continuação da estrada.

Não sei nem pergunto.

Enquanto vou na estrada antes da curva

só olho para a estrada antes da curva,

porque não posso ver senão a estrada antes da curva.

De nada me serviria estar olhando para outro lado

e para aquilo que não vejo.

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.

Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.

Se há alguém para além da curva da estrada,

esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.

Por ora só sabemos que lá não estamos.

Aqui só há a estrada antes da curva, e antes da curva

há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro

Quadras
Agosto 6, 2011

A morte é curva na estrada,

morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

existir como eu existo.

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.

Fernando  Pessoa

VIII
Março 25, 2009

Cala os olhos, vagabundo.

Não me digas

que há estradas no mundo

sem urtigas.

………

Não me contes

que nascem astros nos vales

para além dos horizontes.

………

Não me fales

de haver poentes

com as cores ardentes

das penas de um galo.

………

Não me tentes,

vagabundo.

solidao1

Não quero ver o mundo.

Prefiro imaginá-lo.

 

José Gomes Ferreira