Mãe Natal
Dezembro 25, 2018

Querida Mãe Natal

aí onde estás, não entre as renas,
mas vestida de estrelas soalheiras,
espaço estelar onde o espírito cintila
nas palavras que me inspiras,
faz-me ser, se possível for essa proeza,
ser eu, cada vez mais, a filha tua,
à altura da pessoa do teu nome
e no amor lavado com que me vestias
no dia a dia, que por o ser,
era sempre Ano Novo.
não deixes esmorecer a tua Bela
para ti, sempre vela natural,
e incendeia de chama, brasa,
luz de ti,
a braseira da minha alma de natal.

Carta escrita à minha mãe, depois da sua travessia, em noite de consoada…
maria isabel fidalgo

Antítese
Dezembro 17, 2018

Navego num largo mar de enganos,

guiado pela estrela cega do horizonte.

O meu destino está inscrito nestes anos

em que o tempo nasce de uma futura fonte.

.

Assim, o que foi ontem está para ser,

passado que vive num presente sem nós,

como o rio que, para correr, nasce na foz;

e tudo o que vi ainda está para se ver,

.

tal como o silêncio que fala nesta voz.

O caminho faz-se quando se está parado,

barco que anda sem haver vento;

.

e só quem está certo pode ser enganado

quando, ao pensar, perde o pensamento,

e em tudo o que sonha só vê o passado.

barco1-1

Nuno  Júdice

Mundo das Ideias
Setembro 10, 2018

Se a minha luz não te possui ao meio-dia,

também não tem a tua sombra,

é este o momento

em que mais te procuram

os cavalos intrépidos,

e eu nem tenho um poema.

.

Sem amor,

vemos apenas as sombras das outras pessoas,

só o amante vê a sua amada

ao meio-dia,

ma hora do esquecimento,

e eu vi-te a ti

com o sol no seu zénite.

.

Não tenhas medo do amor,

minha amada,

não temas a impulsividade

dos cavalos intrépidos,

a única luz que não traz sofrimento

é a do sol no seu zénite,

porque a estrela íntima

não se reflecte em sombras

ao meio-dia.

sol 1

Joel  Henriques

Soneto de Véspera
Fevereiro 9, 2018

Quando chegares e eu te vir chorando

de tanto te esperar, que te direi?

E da angústia de amar-te, te esperando

reencontrada, como te amarei?

.

Que beijo teu de lágrimas terei

Para esquecer o que vivi lembrando

e que farei da antiga mágoa quando

não puder te dizer por que chorei?

.

Como ocultar a sombra em mim suspensa

pelo martírio da memória imensa

que a distância criou – fria de vida

.

imagem tua que  eu compus serena

atenta ao meu apelo e à minha pena

e que quisera nunca mais perdida…

pensativa

Vinicius de Moraes

Cinzas/ I
Abril 18, 2017

A Poesia tem pés de terra.

.

Quando a atiramos para o céu

fica só e transida

no meio das estrelas

– a chorar com saudades dos homens

e da morte.

dreaming_myself_away_by_bellatina

José Gomes Ferreira

Não te amo
Outubro 28, 2016

Não te amo, quero-te: o amor vem da alma.
E eu na alma – tenho a calma,
a calma do jazigo.
Ai, não te amo, não.
.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
a trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não.
.
Ai, não te amo, não; e só te quero
de um querer bruto e fero
que o sangue me devora,
não chega ao coração.
.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
que lhe luz na má hora
da sua perdição?
.
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
do mau feitiço azado
este indigno furor.
Mas oh, não te amo, não.
.
E infame sou, porque te quero; e tanto
que de mim tenho espanto,
de ti medo e terror…
Mas amar!… não te amo, não.

lonely-742719

Almeida Garrett

Namorados no mirante
Setembro 14, 2016

Eles eram mais antigos que o silêncio
a perscrutar-se intimamente os sonhos
tal como duas súbitas estátuas
em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens – a realidade
neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
como um hictus, houvesse adormecido.
Dele apenas restava o eterno grito
da espécie – tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
como duas estrelas que gravitam
juntas para, depois, num grande abraço
rolarem pelo espaço e se perderem
transformadas no magma incandescente
que milênios mais tarde explode em amor
e da matéria reproduz o tempo

nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio…

Vinicius de Moraes in “P’ra viver um grande amor”
Rio de Janeiro, 1960

O mais é nada
Março 16, 2016

Navega, descobre tesouros, mas não os tires do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admira a lua, sonha com ela, mas não queiras trazê-la para a terra.
Goza o sol, deixa-te acariciar por ele, mas lembra-te que o calor dele é para todos.
Sonha com as estrelas, sonha apenas, elas só podem brilhar no céu.
Não tentes deter o vento, ele precisa de correr por toda a  parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não segures a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode molhar só o teu.
As lágrimas? Não as seques, elas precisam correr na minha, na tua, em todas as faces.
O sorriso! Esse tu deves segurar, não deixes-o ir embora, agarra-o!
Quem tu amas? Guarda dentro de um guarda- jóias, tranca, perde a chave!
Quem tu amas é a maior jóia que tu possuis, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a idade aumenta;

conserva a vontade de viver, não se chega a nenhuma parte sem ela.
Abre todas as janelas que encontrares e as portas também.
Persegue um sonho, mas não o deixes viver sozinho.
Alimenta a tua alma com amor, cura as tuas feridas com carinho.
Descobre-te todos os dias, deixa-te levar pelas vontades, mas não enlouqueças por elas.

Procura, procura sempre o fim de uma história, seja ela qual for.
Dá um sorriso a quem esqueceu como se faz isso.
Acelera os teus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.
Olha para o lado, alguém precisa de ti.
Abastece o teu coração de fé, não a percas nunca.
Mergulha de cabeça nos teus desejos e satisfá-los.
Agoniza de dor por um amigo, só sai dessa agonia se conseguires tirá-lo também.
Procura os teus caminhos, mas não magoes ninguém nessa procura.
Arrepende-te, volta atrás, pede perdão!
Não te acostumes com o que não te faz feliz, revolta-te quando julgares necessário.
Alaga o teu coração de esperanças, mas não deixes que ele se afogue nelas.
Se achares que precisas voltar, volta!
Se perceberes que precisas de seguir, segue!
Se estiver tudo errado, começa novamente.
Se estiver tudo certo, continua.
Se sentires saudades, mata-as.
Se perderes um amor, não te percas!
Se o  achares, segura-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada.”

rosas brancas

Fernando Pessoa

Deixem passar
Março 10, 2016

 

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
beber água de Sonho a qualquer fonte;
ou colher açucenas
a um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
e onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
uma estrela no chão.

(1932) Miguel Torga

Foto de Páginas Em Poesia.

Que culpa terão as ondas?
Janeiro 6, 2016

… Que culpa terão as ondas
dos movimentos que façam?
– São os ventos que as impelem
e sulcos profundos traçam.
… Aos ventos quem lhes ordena
que rasguem rugas no mar?
– São as nuvens inquietas
que os não deixam sossegar.
… E as nuvens, almas de névoa,
porque não param, coitadas?
– É que as asas das gaivotas
as trazem desafiadas.
… Mas as asas das gaivotas,
o cansaço há-de detê-las!
– Juraram buscar descanso
nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
e não tombam nem se alcançam,
as asas das pobrezinhas
baldamente se cansam…
baldamente se cansam,
baldamente palpitam!…
As nuvens, por fatalismo,
logo com elas se agitam;
os impulsos que elas dão
arrastam as ventanias;
as vagas arfam nos mares
em macabras fantasias…
.
… Assim as almas inquietas…
Prisioneiras de ansiedades,
mal que se erguem da terra,
naufragam nas tempestades.

espuma

Reinaldo Ferreira