vens
Janeiro 2, 2017

 

vens

caindo

pela dor

acomodando

 

nuas palavras

à ferida de ter

perdido, a face é

pequena para sentir

 

o que em nós sobrevive

no instante em que a voz

desce as sombras desse dia

 

onde voltar já não se escreve

com medo das marés. Podes agora

subir: é como estar (de novo)  na luz

triste

 

João Luís Barreto Guimarães

 

 

 

Chuva da tarde
Outubro 7, 2015

Chuva da tarde, – melodia mansa,

desejos vagos de chorar baixinho…

Voltei aos meus caprichos de criança,

– só quero, Amor, saber do teu carinho!

.

Chuva da tarde… Na poeira ardente

cai um frescor inesperado e calmo.

É um frescor que purifica a gente

– como a leitura mística dum Salmo!

.

Floresçam jasmineiros e açucenas,

– acuda-se à tristeza das raízes!

Que tu, Amor, com tuas mãos pequenas,

as guardes da estiagem e as baptizes!

.

Meu coração doente remoçou-se,

quando o tocaram essas mãos piedosas…

Chuva da tarde, – enfermaria doce,

onde vão convalescer as rosas!

.

Chuva da tarde… Ao longo das varandas

reza mistérios lentos a noitinha.

Que bem não é sonhar em coisas brandas,

nas tuas brandas asas de andorinha!

.

Deixa que a sombra te emoldure a face,

– eleva no silêncio a tua voz!

O Cântico dos Cânticos renasce,

– diria até que se escreveu p’ra nós!

chuva

António Sardinha

Quando o amor morrer dentro de ti
Abril 18, 2014

Quando o amor morrer dentro de ti,
caminha para o alto onde haja espaço,
e com o silêncio outrora pressentido
molda em duas colunas os teus braços.

.
Relembra a confusão dos pensamentos,
e neles ateia o fogo adormecido
que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
espalhou generoso aos quatro ventos.

.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
e o nocturno calor que se debruça
sobre as faces brilhantes de soluços.

.
E se ninguém vier, ergue o sudário
que mil saudosas lágrimas velaram;
desfralda na tua alma o inventário
do templo onde a vida ora de bruços
a Deus e aos sonhos que gelaram.

só

Ruy Cinatti,   em  “Obra Poética”

Pérola solta
Março 23, 2012

Sem que eu a esperasse,
… rolou aquela lágrima
no frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho…,
até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede


rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
na boca me cantou,
breve como essa lágrima,
esta breve elegia.

José Régio   em   Filho do Homem

18
Novembro 16, 2011

Se hoje á noite chover

talvez me vá estender ao sol da tua face

como se acreditasse

que o outono voltou.

E no banco de ver

dourados e vermelhos

vou cruzar os joelhos

ao lado de quem sou.

   …

Vou à esquina de ti comprar castanhas

guardá-las nas entranhas

dos bolsos de inventar.

Vou ao sótão de nós buscar a lenha

de acender a fogueira de falar.

Cortarei o pão quente da conversa

perguntas e respostas e risadas

que são bolos de festa.

Falaremos do sol, das madrugadas,

do mar e da floresta.

E se ainda chover

quando a vitrola da alegria der

compassos soltos de uma moda antiga

(que ninguém canta mais)

trocaremos palavras rituais

que servem p’ra fazer uma cantiga

(trigo, linho, papoila, malmequer,

saudade, rapariga…)

Diremos orações no tom do vento

exconjurando fantasmas que há em nós.

Faremos o amor visto por dentro

junto à lareira de não estarmos sós.

Ouviremos na cama o som da chuva

(sempre chove na sede de quem quer).

De folha em folha seca

de uva em uva

juntaremos os corpos à saúde

desse outono dourado que vier.

Porém se tudo não surtir efeito

e disseres que novembro não voltou,

vou pousar a cabeça no teu peito.

Saberás que o outono já chegou.

Rosa Lobato de Faria

 

Retrato
Maio 15, 2011

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

Uma lágrima
Outubro 19, 2010

Encosto a cabeça no vidro.

Lá fora anoitece. A chuva cai, gélida.

Fico a olhar o horizonte longínquo.

Por momentos fecho os olhos, fico a pensar em ti,

e teimosamente uma lágrima corre pela minha face.

E outra e mais outra.

Abro os olhos e vejo-te. Estarás aí?

Sorris.

Sorrio.

Uma leve brisa passa pela minha face,

gelando as lágrimas que não deixam de correr.

Fecho os olhos mais uma vez.

Desapareces.

Carlota Pires Dacosta

Olhar
Março 25, 2010

Em teu macio olhar repousa o meu.

E na face polida, assim formada,

se reflecte e recria o próprio céu.

Daniel Filipe