Paisagem agreste
Agosto 2, 2011

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste

nos teus olhos : as nuvens a prometerem chuva,

os espinheiros agitados com a erosão das dunas,

um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa –

era a força do vento contra o corpo do navio ; uma

miragem fatal da tempestade ; e o medo da tragédia

a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira

dos deuses com o mundo. Quando te levantaste,

.

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu

de morte como a lâmina de um punhal acabado

de comprar. ( Se trovejasse, podia ser um raio

a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos).

.

Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas –

de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos

que as ondas espalham de madrugada pelas praias.

Mª Rosário Pedreira

Se partires, não me abraces
Maio 22, 2011

Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha vom viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar) ; e o rosto

espia os espelhos à espera que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário  Pedreira