Que já me magoaste me sossega
Abril 4, 2017

Que já me magoaste me sossega
e por mágoas e então, que ainda passo,
peso das minhas faltas me carrega,
nem os meus nervos são de bronze ou aço.

.
Pois se em minha rudeza te abalei,
e tu a mim, o que infernal te oprime,
com ser tirano, tempo não gastei
pesando o que sofri pelo teu crime.

.
Ah, nossa dor nocturna em mim lembrasse,
bem fundo, quanto dói funda tristeza
e, como a mim me deste, te prestasse

.
bálsamo humilde à dor no peito acesa.
Torne-se um preço a ofensa que em ti vinha;
resgate a minha a tua, a tua a minha.

olho-200

Shakespeare (tradução de Vasco Graça Moura)

Dia 255 (excerto)
Julho 3, 2012

Esta manhã foi a mais bela de todas as manhãs.
… Cheia de ti. Do teu brilho,do teu cheiro, do teu
sorriso igual ao das maçãs.
Ainda tenho nos meus olhos o brilho dos teus
olhos. Nunca, como hoje, desejei estar contigo
numa ilha. Uma ilha deserta, mas cheia de nós.
E à tua pergunta natural: “o que é que estamos
aqui a fazer?”, eu responderia também
naturalmente: “se cá estamos,

é porque fazemos cá falta!”.

JOAQUIM PESSOA,  em  ANO COMUM (Litexa, 2011)

Pedaço de nada
Fevereiro 8, 2011

Fugiu-me um pedaço de nada

da palma da minha mão.

Fiquei com a mão vazia

e um nó no coração.

 

Tanta falta, quem diria,

esse nada me faria.

Mas era um nada invulgar,

não vou achar o seu par.

 

Não têm conta os que somei,

os nadas que já perdi.

E  nem assim aprendi,

nem assim a mão fechei.

 

M  J  Rijo 

Como só a ti amaria
Setembro 18, 2010

Vieste sem te anunciares,

sem que precisasse de ti,

sem sentir a tua falta,

de mansinho,

como uma brisa suave.

E quando pensei em ti

já aqui estavas,

já me faltavas,

já te queria beijar.

 

O meu coração fechado era aberto,

a minha vida contada estava em branco.

Haviam palavras por dizer,

mãos que tinham muito por tocar.

 

Acordei e descobri que te queria,

num desejo que é mais do que desejo.

Em cada carícia sobre a tua pele,

e em cada beijo demorado,

um desejo de ser profundo,

tão profundo quanto o mais profundo mar…

 

Em cada beijo demorado,

ser mais do que eu,

dar-te mais do que tenho,

misturar-me mais do que em ti,

sermos mais do que um.

 

A cada beijo demorado,

sermos mais do que nós,

vontade mais do que nossa,

de nos despirmos de tudo,

e encontrar no fundo do olhar

o que existe para além de nós que nos tocamos.

 

A cada beijo amar-te a ti,

como só a ti amaria,

nem que para isso só tivesse este momento.

 

Ah! Quem te colocou no meu caminho?

João Tiago

Ausência
Outubro 2, 2008

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje  não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada,

aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

faith-and-trust

 Carlos Drummond de Andrade