Balada dos Aflitos
Novembro 24, 2014

Irmãos humanos tão desamparados

a luz que nos guiava já não guia

somos pessoas – dizeis – e não mercados

este por certo não é tempo de poesia

gostaria de vos dar outros recados

com pão e vinho e menos mais-valia.

.

Irmãos meus que passais um mau bocado

e não tendes sequer a fantasia

de sonhar outro tempo e outro lado

como António digo adeus a Alexandria

desconcerto do mundo tão mudado

tão diferente daquilo que se queria.

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Talvez Deus esteja a ser crucificado

neste reino onde tudo se avalia

irmãos meus sem valor acrescentado

rogai por nós Senhora da Agonia

irmãos meus a quem tudo é recusado

talvez o poema traga um novo dia.

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Rogai por nós Senhora dos Aflitos

em cada dia em terra naufragados

mão invisível nos tem aqui proscritos

em nós mesmos perdidos e cercados

venham por nós os versos nunca escritos

irmãos humanos que não sois mercados.

gold-falls-leonid-afremov

Manuel  Alegre

Espera
Fevereiro 28, 2013

Quando  estiveste  aqui, amor, os  dias

foram  céu, foram  sonho, foram  vida.

Vestiste-os  de  luz.  Só  tu  podias

e  levaste-me  à  terra  prometida.

beijos

Nos  teus  braços,  todas  as  fantasias

acontecem,  eu  sinto-me  querida.

Solto  o  meu  coração. Não  conhecias

a  fome  de  amor  que  trago  escondida.

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Partiste.  Agora  um  mundo  nos  separa.

É  difícil  viver  longe  de  ti,

sem  ouvir  a  tua  voz, sem  te  beijar.

.

Invento  para  nós  a  manhã  clara

do  reencontro.  Sei  o  que  perdi

quando  te  foste, amor, e  sei  esperar.

        .

Diana Sá

Não saibas : imagina
Novembro 19, 2012

Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
que o mar não cabe
na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
de ilusões…
Um á-bê-cê secreto
que soletres à margem das lições…

Voa pela janela
de encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
vais ao colo das brisas,
aias da fantasia…

Miguel Torga

Foto: João Carvalho (21 de Agosto de 2012)

Uma vez que seja
Novembro 25, 2010

Tu, que navegas ao sabor do vento,

sem outra rota que a que se deseja.

Tu, que por mapa tens o firmamento,

vem descobrir-me, uma vez que seja!

 

E  diz-me das viagens que não faço,

dos mundos cintilantes que antevejo,

e traz-me mares de mel no teu abraço,

poeira de ouro velho no teu beijo!

 

Ó navegante da minha fantasia,

por quanto tempo mais te sonharei,

até terem sentido, num só dia,

todos os dias em que te esperei?

 

De ti não espero amarras nem promessas.

É  livre que te quero neste cais,

até que um dia em mim tu amanheças

e  te faças ao mar, uma vez mais…

 

É  que, mesmo na hora de perder-te,

sabendo que a magia se desfez,

terá valido a pena conhecer-te

e deslumbrar-me, ao menos uma vez!

Ana  Vidal

 

Névoa
Outubro 29, 2008

Procurei-te e não te encontrei,

embora tu soubesses que eu ia.

Foi fuga, imprevisto, adeus? Não sei.

Foi névoa baça sobre o meu dia…

.

Não conheço o correr da tua lei,

nem a luz invisível que te guia.

Pergunto a mim própria se estarei

uma vez mais seguindo a fantasia…

Algo me diz que eu sou importante

para ti, que agora, neste instante,

pensas em nós e sonhas com a hora

.

de acabar com os mal-entendidos.

Mas como acreditar? Os meus sentidos

buscam-te, tensos, e tu vais embora.

.

 Diana Sá